Crianças de hoje: a infância na contemporaneidade
Desejo e Subversão и Karla Kaminskas Psicanalista
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Crianças de hoje: a infância na contemporaneidade
64 просмотра · 8 дней назад
Desejo e Subversão и Karla Kaminskas Psicanalista
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Quando uma criança não se concentra, não obedece, não permanece quieta, não aprende no ritmo esperado ou não consegue se separar das telas, rapidamente perguntamos: “O que essa criança tem?” Talvez devêssemos perguntar também: “O que está acontecendo ao redor dela?” Que mundo é esse no qual uma criança precisa crescer? Que expectativas depositamos sobre ela? Quanto tempo lhe concedemos para brincar, imaginar, entediar-se, experimentar, errar e descobrir quem é antes de exigirmos que esteja preparada para tornar-se alguém?
A infância contemporânea parece viver sob uma contradição profunda. Nunca observamos tanto as crianças e, talvez, nunca tenhamos tido tanta dificuldade para verdadeiramente escutá-las. Nós as acompanhamos, protegemos, filmamos, avaliamos, estimulamos e diagnosticamos. Conhecemos suas notas, seus comportamentos, seus horários, suas dificuldades e até seu tempo de exposição às telas. Mas será que conhecemos seus medos? Será que suportamos suas perguntas? Será que conseguimos escutar aquilo que elas dizem quando ainda não possuem palavras para dizer?
Porque uma criança não fala apenas por meio da linguagem. Ela fala com o corpo, com a brincadeira, com a agitação, com o silêncio, com a recusa, com o choro, com o medo, com a fantasia e também com o sintoma. E o sintoma infantil nunca pertence somente à criança. Muitas vezes, ele se torna o lugar em que aparece aquilo que a família não consegue dizer, aquilo que a escola não consegue acolher e aquilo que uma época inteira prefere não reconhecer.
Vivemos em uma sociedade acelerada, hiperconectada e organizada pela exigência de desempenho. Os adultos estão cansados, ansiosos, constantemente disponíveis para o trabalho e cada vez menos disponíveis para a presença. E, nesse mesmo mundo, esperamos que as crianças sejam tranquilas, concentradas, emocionalmente reguladas e capazes de suportar frustrações que nós mesmos já não conseguimos suportar.
Queremos que amadureçam cedo, mas lamentamos quando deixam de ser crianças. Ocupamos todos os seus horários e depois nos inquietamos com a falta de criatividade. Tentamos poupá-las de qualquer sofrimento, mas podemos acabar impedindo que construam recursos para enfrentar a vida. Entregamos uma tela para que permaneçam quietas e, mais tarde, culpamos a própria criança por não conseguir afastar-se dela. Desejamos que tenham autonomia, desde que suas escolhas não contrariem excessivamente aquilo que imaginamos para elas.
Talvez a pergunta desta noite não seja apenas “quem são as crianças de hoje?”, mas também: quem somos nós diante delas? Que infância conseguimos oferecer quando o tempo se tornou mercadoria, o silêncio parece insuportável, o tédio precisa ser imediatamente eliminado e até o brincar começa a ser avaliado por sua utilidade?
Não estamos aqui para idealizar a infância de ontem, como se ela tivesse sido inteiramente livre, protegida e feliz. Sabemos que muitas crianças de outras gerações foram silenciadas, violentadas e obrigadas a crescer cedo demais. Também não estamos aqui para transformar as famílias em culpadas individuais por um sofrimento produzido coletivamente. Estamos aqui para pensar. E pensar, neste caso, significa retirar a criança do banco dos réus e interrogar o mundo que a cerca.
Para essa conversa tão necessária, recebo hoje Carla Bittencourt, Monica Casinha e Karla Kaminskas. Três convidadas que nos ajudarão a olhar para a infância sem romantização, sem respostas apressadas e, sobretudo, sem reduzir a criança a um comportamento que precisa ser corrigido.
Eu sou Ricardo Branco Moreira, este é o Conversa Sem Recalque, no canal Desejo e Subversão — porque o mal-estar é o nosso ponto de partida, mas não precisa ser a nossa última palavra.