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Na Gaiola

Noção submersa

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Na Gaiola

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Décimo primeiro circulo: Na Gaiola Álbum: Noção Submersa Por Laion Okuda Na Gaiola denuncia como o poder sequestra palavras legítimas como preservação ambiental, ordem pública, revitalização e interesse público, para construir narrativas que criminalizam moradores, silenciam comunidades e favorecem interesses econômicos. Em Pedra de Guaratiba, na região da Ponta Grossa, famílias construíram suas vidas ao longo de décadas. Há imóveis com documentos de compra, registros, pagamentos de IPTU e situações de usucapião. Esses elementos porem, não garantiram a regularidade jurídica de propriedade. Famílias foram acusadas de soterrarem o mangue, quando na realidade o mangue veio tomando a parte costeira, através de drenagens e outras obras portuárias. Em 2026, o Ministério Público Federal acionou a Justiça para ordenar ocupações da orla e recuperar áreas degradadas. A determinação de vistorias individualizadas e do cruzamento de registros fiscais e patrimoniais evidencia uma questão essencial: cada imóvel possui uma história e uma situação jurídica próprias. Quando o Estado transforma situações distintas em uma única categoria, a narrativa substitui a investigação: o morador deixa de ser alguém com uma história e direitos a examinar e passa a ser tratado como um problema a eliminar. Quando o poder público permite que problemas se acumulem e depois transfere seus custos aos moradores mais vulneráveis, precisamos perguntar: quem responde pela omissão institucional? A Casa 4 da Ponta Grossa representa esse conflito. O que acontece com uma família cujo lar, apresentando documentos de aquisição, pagando impostos, IPTU, e etc não tem garantia a sua propriedade, e ainda é chamado de invasor sem uma análise jurídica individualizada e o direito de contestar decisões? A questão central é quem tem o poder de definir a narrativa, quem suporta suas consequências e quem se beneficia da transformação do território. Na Vila Autódromo, as intervenções relacionadas aos Jogos Olímpicos e à valorização imobiliária acompanharam a remoção de centenas de famílias. Assim nasce o Museu das Remoções. A disputa envolvendo o jogador Richarlison e uma propriedade na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, também suscita questões sobre posse, patrimônio e acesso à Justiça. Os casos permitem questionar: como o poder econômico e a influência institucional afetam a capacidade de defender um imóvel? Não se trata de presumir que todo empreendimento seja criminoso. Trata-se de exigir transparência sobre contratos, concessões, licenças, parcerias público-privadas e projetos imobiliários. Quem ganha com a transformação do território? Quem paga seus custos? Quem recebe indenizações? Quem perde sua casa? Quem fiscaliza os beneficiários? E assim se apaga o problema ambiental real, a Baía de Sepetiba acumula um histórico documentado de contaminação por metais pesados, incluindo cádmio, chumbo e zinco, associados à atividade industrial. Estudos identificaram concentrações elevadas desses elementos nos sedimentos e riscos aos ecossistemas e à cadeia alimentar. A degradação ambiental também ameaça a pesca e a subsistência das comunidades locais. Por isso, a fiscalização deve alcançar não apenas os moradores, mas também as atividades industriais e portuárias, os responsáveis pelos danos e as omissões do poder público, com transparência e responsabilização proporcional às evidências. O pescador e o morador não podem ser tratados como únicos responsáveis pelos danos de um território marcado também por atividades econômicas, decisões públicas e falhas de fiscalização. Quando a contaminação compromete a pesca, comunidades perdem renda, alimento e autonomia. Por isso, a investigação precisa alcançar o poder político. Quais parlamentares propuseram ou apoiaram mudanças que flexibilizam regras ambientais ou enfraquecem a fiscalização de grandes indústrias e proprietários de terras? A gaiola também é construída por palavras que criminalizam o inocente, processos incompreensíveis que dificultam sua defesa, decisões sem participação popular com promessas que desaparecem depois das eleições. A desigualdade também se reproduz pela linguagem que torna determinadas ações aceitáveis e determinados grupos descartáveis Primeiro, redefine-se o morador como invasor, depois a remoção como solução e por fim o empreendimento como progresso. Assim, essa narrativa passa a legitimar decisões cujos custos recaem sobre comunidades, enquanto os benefícios e a responsabilidade permanecem concentrados em outros lugares. Essa utilização seletiva de discursos como justificativa para remover os vulneráveis enquanto recompensa as omissões públicas, os interesses privados e os impactos das atividades econômicas. Quem controla a narrativa pode transformar direitos em obstáculos, omissões em culpa alheia e interesses particulares em suposto interesse público. É dessa gaiola que precisamos aprender a se libertar. Instagram: https://www.instagram.com/nocao_submersa/