Transtornos Alimentares: quando a relação com a comida revela um sofrimento.
Ansiedade Em cena
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Transtornos Alimentares: quando a relação com a comida revela um sofrimento.
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Neste episódio do Ansiedade em Cena, recebemos a psicóloga clínica e social Naiane Catarine, especialista em Transtornos Alimentares, profissional com ampla experiência no atendimento de crianças, adolescentes e adultos. Atualmente, Naiane integra a equipe da Valor Psicologia, onde desenvolve um trabalho pautado na compreensão profunda do comportamento alimentar e de seus determinantes emocionais, familiares e sociais.
Ao longo da conversa, refletimos sobre um tema delicado e cada vez mais presente na prática clínica: os transtornos alimentares. Embora possam acometer qualquer pessoa, os dados mostram uma prevalência significativamente maior entre meninas e adolescentes do sexo feminino, especialmente em uma fase da vida marcada pela construção da identidade, da autoestima e da imagem corporal.
Falamos sobre como os transtornos alimentares raramente começam pela comida. Antes das restrições, compulsões ou comportamentos compensatórios, existe um sofrimento silencioso, profundamente emocional, que vai se instalando de forma gradual. Muitas vezes, a pessoa vive aprisionada em seus próprios pensamentos, em uma relação solitária com o espelho, com o corpo e com a alimentação. Trata-se de um sofrimento que frequentemente permanece invisível até mesmo para aqueles que convivem diariamente com ela.
Naiane compartilha uma realidade muito comum em sua prática clínica: os pais, na maioria das vezes, não são os primeiros a perceber que algo está acontecendo. O alerta costuma vir da escola, de familiares, de amigos ou de outros profissionais. Isso acontece porque crianças e adolescentes aprendem, muitas vezes, a esconder seus comportamentos, desenvolvendo estratégias para manter em segredo aquilo que vivem internamente.
Conversamos também sobre o impacto que palavras aparentemente simples podem exercer sobre o desenvolvimento emocional de uma criança. Comentários como "você está engordando", "precisa emagrecer", "cuidado para não ficar gordinha" ou comparações entre irmãos e colegas podem parecer inofensivos para quem fala, mas podem marcar profundamente uma criança que ainda está construindo sua identidade e sua relação com o próprio corpo.
Outro aspecto muito importante abordado neste episódio é o papel da família. Muitos pais que hoje controlam rigidamente a alimentação dos filhos carregam experiências pessoais marcadas por sofrimento, preconceito e discriminação em relação ao próprio corpo.
Falamos sobre uma situação cada vez mais comum: pais que passaram por cirurgias bariátricas ou utilizam medicamentos para perda de peso, mas que nunca tiveram a oportunidade de trabalhar psicologicamente a relação construída ao longo da vida com a comida, com o corpo e com a autoestima. A perda de peso modifica o corpo, mas nem sempre transforma as crenças, os medos e os padrões emocionais que acompanharam aquela pessoa durante anos.
Sem esse cuidado, existe o risco de que experiências dolorosas sejam transmitidas, de maneira involuntária, para a próxima geração. Movidos pelo desejo legítimo de proteger os filhos do sofrimento que viveram, alguns pais passam a controlar excessivamente a alimentação, fiscalizar cada refeição, restringir alimentos e transformar a comida em um espaço de tensão constante dentro da família.
Discutimos como restrições alimentares muito severas, especialmente quando não possuem indicação clínica, podem produzir justamente o efeito contrário ao esperado. Não é raro observar crianças que, ao chegarem a uma festa de aniversário, comem de forma intensa, rápida e descontrolada, como se precisassem aproveitar uma oportunidade rara de acesso àqueles alimentos. Muitas vezes, esse comportamento não revela falta de educação ou ausência de limites; ele pode indicar uma relação de escassez, proibição e ansiedade construída dentro de casa.
Nenhuma criança merece crescer refém dos medos, das inseguranças ou das dores que pertencem à história de seus pais. Ela merece desenvolver uma relação saudável com o próprio corpo, com a comida e consigo mesma, baseada em equilíbrio, segurança, autonomia e acolhimento.
Este episódio é um convite para famílias, educadores e profissionais ampliarem seu olhar sobre os transtornos alimentares, compreendendo que eles não começam no prato, mas nas experiências emocionais, nos vínculos e nas mensagens que as crianças recebem sobre seus corpos desde muito cedo.
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