Quem fará as perguntas que a América Latina ainda não fez? 30Sep26
Jackson Cionek
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Quem fará as perguntas que a América Latina ainda não fez? 30Sep26
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Jackson Cionek
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Também somos massificados pelas escolhas que não tivemos.
Quando pensamos em liberdade, normalmente imaginamos a possibilidade de escolher entre caminhos disponíveis.
Mas e quando os próprios caminhos que chegam até nós já foram delimitados por estruturas históricas, científicas, econômicas, religiosas, jurídicas e políticas?
Se existem apenas A e B diante de nós, podemos sentir que escolhemos livremente.
Mas quem decidiu que C não apareceria?
Essa pergunta atravessa a história da América Latina.
Antes da chegada europeia, já existiam aqui povos, línguas, conhecimentos, formas de organização e maneiras próprias de compreender corpo, território, natureza, tempo, espiritualidade e convivência.
A colonização não encontrou uma América sem perguntas.
Talvez muitas perguntas apenas tenham deixado de entrar nos espaços que depois passaram a definir o que seria Ciência, Política, Direito, Economia, Religião e conhecimento válido.
Nesta live, queremos retirar algumas dessas palavras de seus ótimos locais de jargões e experimentar uma analogia BrainLatam simples:
Fazer é Ciência.
Julgar é Política.
Imaginar um amanhã e reorganizar o agora para torná-lo possível é, nesta analogia, Religião.
Não são definições acadêmicas universais. É uma tentativa de voltar ao Corpo-Território antes das instituições.
Antes da universidade, alguém observou, tentou, errou, repetiu, comparou e percebeu diferenças.
Antes dos partidos e parlamentos, grupos humanos já precisavam decidir o que era bom, ruim, justo, injusto, permitido ou proibido.
E antes das instituições religiosas atuais, seres humanos já modificavam o presente a partir de futuros imaginados: preservar uma nascente, guardar alimento, criar um ritual, estabelecer uma regra, proteger algo para quem ainda viria depois.
Talvez Ciência, Política e Religião não tenham começado nas instituições.
Talvez as instituições tenham organizado, nomeado e estabilizado capacidades que já existiam no Corpo-Território.
O problema não está em receber conhecimento antigo.
Precisamos de memória.
A Ciência precisa acumular conhecimento. Sociedades precisam de instituições. Culturas precisam transmitir experiências.
O problema começa quando aquilo que foi aprendido ontem deixa de ser ponto de partida e passa a decidir quais perguntas ainda poderão ser feitas amanhã.
Criamos métodos, leis, instituições, especialistas, doutrinas e modelos.
E podemos começar a confundir:
“Foi assim que conseguimos compreender até aqui”
com:
“É assim que necessariamente precisa ser”.
Talvez esse seja um grande ótimo local institucional.
E talvez a América Latina conheça profundamente esse problema.
Quem definiu as perguntas que nossas universidades aprenderam a responder?
Quem teve laboratórios, infraestrutura e financiamento?
Quem definiu nossas métricas de normalidade?
Quais populações participaram da construção dos modelos utilizados para compreender cérebro, comportamento, saúde e sociedade?
E quem ficou fora dessa medida?
A proposta não é abandonar o conhecimento estabelecido.
É impedir que ele encerre antecipadamente as possibilidades.
Porque o Corpo-Território muda.
O Bioma muda.
A tecnologia muda.
A sociedade muda.
E problemas novos podem exigir perguntas que nossas categorias antigas ainda não sabem formular.
Isso também acontece com o poder.
Dinheiro pode comprar publicidade, advogados, assessoria, influência, tempo e capacidade de repetir uma mesma interpretação muitas vezes.
Mas um rio não possui assessoria de imprensa.
Uma floresta não compra publicidade.
Um Corpo-Território que sofreu uma violência pode não ter recursos para repetir sua história indefinidamente.
Então talvez uma democracia precise perguntar não apenas:
quem consegue falar?
Mas:
quem consegue continuar sendo ouvido?
E principalmente:
que possibilidade nunca conseguiu entrar na conversa?
É nesse ponto que aparece Jiwasa: “a gente”, um nós inclusivo.
Um pertencimento que não exige que alguém deixe de ser quem é para fazer parte do coletivo.
Talvez a América Latina não precise apenas ocupar mais espaço dentro das perguntas existentes.
Talvez precise recuperar a capacidade de produzir suas próprias perguntas.
É também nesse espírito que pensamos o NeuroDesafio LATAM.
Não queremos jovens treinados para concordar conosco.
Queremos jovens capazes de perguntar:
Por que vocês começaram por esse ponto?
Quem definiu essa variável?
Quem ficou fora da amostra?
Que território não entrou nesse modelo?
Por que o Bioma aparece apenas depois do dano?
Que escolha nunca chegou até nós?
Talvez alguns descubram que hipóteses da própria BrainLatam estavam erradas.
Ótimo.
Porque uma pergunta não precisa proteger quem a formulou.
Precisa aumentar nossa capacidade de enxergar.
Se também somos massificados pelas escolhas que não tivemos, quantas estruturas continuamos chamando de normais apenas porque nunca tivemos a oportunidade de formular outra pergunta sobre elas?
Hoje queremos perguntar juntos:
Quem fará as perguntas que a América Latina ainda não fez?