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AUTO DOS QUE AINDA CAMINHAM

Bruno Sentone

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AUTO DOS QUE AINDA CAMINHAM

85 просмотров · 6 дней назад
Bruno Sentone
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AUTO DOS QUE AINDA CAMINHAM Portinari, Suassuna e o Brasil de agora A terra racha antes do primeiro passo. O céu pesa de tão aberto. Ao fundo, torres recortam o horizonte; aqui, o chão ainda sabe o nome da fome. Portinari pôs os retirantes no limiar da partida: pés nus, trouxas, ossos sob o tecido, uma família ocupando quase toda a tela, como se não houvesse, fora dela, lugar bastante. Na tela, sobre eles, a lua e os urubus. Agora, João Grilo entra no quadro. Traz, no corpo, a mesma falta e aprendeu a abrir caminho com a palavra. Quando o pão falta, inventa uma saída; quando a força fecha a porta, procura a fresta. Seu dedo erguido parece argumentar com o céu. Chicó segue ao lado, uma mão no peito. A cachorra vem no primeiro plano: em Taperoá, já ganhou enterro em latim, e o dinheiro de um testamento inventado fez a recusa aprender a ceder. Ali, o riso também acusa. Fios cortam o céu, caixas-d’água se erguem, e os prédios fecham o horizonte. A moto e o jumento dividem a mesma paisagem: não são dois tempos; é o mesmo presente. A cidade cresce ao fundo; a necessidade permanece no primeiro plano. Então, o quadro vira auto. No Tribunal das Almas, o Diabo acusa, um Cristo negro julga, e a Compadecida intercede: lembra ao Juízo o que a acusação esquece — a vida que veio antes da escolha. É antiga a imagem desse Juízo. A Idade Média a talhou em pedra e marfim: Cristo juiz, os mortos que se erguem, céu e inferno, a Virgem que intercede. Suassuna reencontra essa memória nos milagres medievais de Nossa Senhora e a faz falar com o riso do sertão. Diante do Juízo, dinheiro, poder e batina não compram salvo-conduto. A mesma medida vale para todos, mas não apaga a diferença dos caminhos que os trouxeram até ali. Por isso, os retirantes ainda caminham. Não porque o tempo tenha parado: o país mudou; mudaram também as formas da pobreza. Mas a distância entre abundância e falta muda de forma e de endereço sem desaparecer. Entre o riso de João Grilo e o silêncio dos retirantes de Portinari, uma pergunta atravessa o quadro e chega a nós: como pesar uma escolha sem pôr na balança o caminho inteiro que veio antes dela? — Trabalho de Arte na Idade Média realizado por Beatriz Lima Nunes, Bruno Sentone, Erika Hanashiro, Jade Carvalho De Araújo Lara Nogueira, Juliana Matias Tolentino e ⁠Nathalia Faustino de Albuquerque Pós-Graduação em História das Artes Centro Universitário Belas Artes de São Paulo