AUTO DOS QUE AINDA CAMINHAM
Bruno Sentone
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AUTO DOS QUE AINDA CAMINHAM
Portinari, Suassuna e o Brasil de agora
A terra racha antes do primeiro passo.
O céu pesa de tão aberto.
Ao fundo, torres recortam o horizonte;
aqui, o chão ainda sabe o nome da fome.
Portinari pôs os retirantes no limiar da partida:
pés nus, trouxas, ossos sob o tecido,
uma família ocupando quase toda a tela,
como se não houvesse, fora dela, lugar bastante.
Na tela, sobre eles, a lua e os urubus.
Agora, João Grilo entra no quadro.
Traz, no corpo, a mesma falta
e aprendeu a abrir caminho com a palavra.
Quando o pão falta, inventa uma saída;
quando a força fecha a porta, procura a fresta.
Seu dedo erguido parece argumentar com o céu.
Chicó segue ao lado, uma mão no peito.
A cachorra vem no primeiro plano:
em Taperoá, já ganhou enterro em latim,
e o dinheiro de um testamento inventado
fez a recusa aprender a ceder.
Ali, o riso também acusa.
Fios cortam o céu, caixas-d’água se erguem,
e os prédios fecham o horizonte.
A moto e o jumento dividem a mesma paisagem:
não são dois tempos; é o mesmo presente.
A cidade cresce ao fundo;
a necessidade permanece no primeiro plano.
Então, o quadro vira auto.
No Tribunal das Almas, o Diabo acusa,
um Cristo negro julga,
e a Compadecida intercede:
lembra ao Juízo o que a acusação esquece —
a vida que veio antes da escolha.
É antiga a imagem desse Juízo.
A Idade Média a talhou em pedra e marfim:
Cristo juiz, os mortos que se erguem,
céu e inferno, a Virgem que intercede.
Suassuna reencontra essa memória
nos milagres medievais de Nossa Senhora
e a faz falar com o riso do sertão.
Diante do Juízo,
dinheiro, poder e batina não compram salvo-conduto.
A mesma medida vale para todos,
mas não apaga a diferença dos caminhos
que os trouxeram até ali.
Por isso, os retirantes ainda caminham.
Não porque o tempo tenha parado:
o país mudou; mudaram também as formas da pobreza.
Mas a distância entre abundância e falta
muda de forma e de endereço sem desaparecer.
Entre o riso de João Grilo
e o silêncio dos retirantes de Portinari,
uma pergunta atravessa o quadro e chega a nós:
como pesar uma escolha
sem pôr na balança
o caminho inteiro que veio antes dela?
—
Trabalho de Arte na Idade Média realizado por Beatriz Lima Nunes, Bruno Sentone, Erika Hanashiro, Jade Carvalho De Araújo Lara Nogueira, Juliana Matias Tolentino e Nathalia Faustino de Albuquerque
Pós-Graduação em História das Artes
Centro Universitário Belas Artes de São Paulo