Ouvi um Cão
ALTA VOLTAGEM ROCK
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Ouvi um Cão
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ALTA VOLTAGEM ROCK
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Eu sou um padre, não sou exorcista,
Mas certas coisas já ouvi contar.
Numa manhã, chegou um casal,
Com tanto medo que mal podia falar.
Disseram: "Padre, não temos sossego,
Há muitas noites sem conseguir dormir.
As portas se abrem, as luzes se apagam,
E há coisas na casa que não podemos explicar."
Eu disse: "Hoje, quando a noite cair,
Irei à casa de vocês rezar.
Meu velho amigo está longe daqui,
Mas farei o que puder pra ajudar."
Cheguei à casa, já era noite,
Cinco pessoas me esperavam ali.
Um pai, uma mãe, três filhos assustados,
Com olhos cansados, sem conseguir sorrir.
Oh, Senhor, guardai esta casa,
Que a escuridão não venha aqui morar.
Se há algo oculto rondando essas paredes,
Que a Vossa luz o faça recuar.
Pediram que eu comesse alguma coisa,
Mas disse: "Depois, vamos primeiro rezar."
Água, um crucifixo e alguns terços,
E a Virgem Santa sobre o altar.
Em torno da mesa, ficamos de pé,
E comecei a minha oração.
Mas lá do fundo daquele quintal,
Um cão soltou um uivo de assombração.
Latia tão forte, parecia um gigante,
Arranhando o silêncio daquele lugar.
Por quase uma hora, seguimos rezando,
Sem deixar que o medo nos fizesse parar.
E quanto mais alto eu erguia a voz,
Mais aquele bicho parecia rosnar.
Mas quando terminei a última prece,
O cão se calou... sem mais um som no ar.
Oh, Senhor, guardai esta casa,
Que a escuridão não venha aqui morar.
Se há algo oculto rondando essas paredes,
Que a Vossa luz o faça recuar.
Depois da reza, sentamos à mesa,
O medo parecia enfim ter passado.
Eu disse: "Só peço uma coisa a vocês:
Deixem aquele cachorro amarrado.
Pois toda vez que vier uma visita,
Ele pode assustar quem chegar.
Com aquele latido tão forte,
Quase não consegui me concentrar."
Então o pai me olhou...
Depois olhou pra sua mulher...
E disse baixinho:
"Mas, padre...
Nós não temos cachorro."
Fui até a cozinha e abri aquela porta,
Dei uma olhada lá fora, no chão.
Não havia cachorro, nem rastro, nem nada,
Só o vento soprando na escuridão.
Mas do lado de fora, na madeira da porta,
Havia marcas profundas, de cima até o chão.
Perguntei: "Há quanto tempo estão aqui?"
Disseram: "Essa porta foi posta ontem, meu irmão."
"Era nova, padre... sem marca nenhuma,
Ninguém a tocou desde que foi colocada."
Olhei novamente praqueles arranhões,
E senti minha voz ficar calada.
Oh, Senhor, guardai esta casa,
Que a escuridão não venha aqui morar.
Há coisas que os olhos não conseguem ver,
E que a razão não sabe explicar.
Eu não peço que vocês acreditem...
Só conto aquilo que presenciei.
Naquela casa...
Naquela noite...
Eu ouvi um cão...
...que não existia.