Ep. 5 - A crônica e o conto, por Humberto Werneck
Na Fila do Pão Artesanal
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Ep. 5 - A crônica e o conto, por Humberto Werneck
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Pouco adiantou roteirizar nosso encontro. Ao longo de duas horas e vinte minutos de conversa, o jornalista e escritor Humberto Werneck serenamente rasgou meu script, deletou meus slides, deixou-me pelado em praça pública, ao rés do chão.
Era para ser um leve e derradeiro episódio de podcast, que trataria do ofício do cronista, mas falhei com admirável competência ao tentar conduzir uma entrevista que, mesmo editada, mais se aproximou de um papo desembestado de mesa de bar, daqueles em que se abrem dezenas de parênteses e não se fecha nenhum.
Planejei perguntar sobre crônica, ele me respondeu sobre passagem do tempo. Ensaiei uma reflexão presunçosa sobre processo de escrita, ele me devolveu com a tranquilidade de quem já parece não se importar se vai ou não soar inteligente.
Oxalá nosso encontro tenha se aproximado do bate-papo que Werneck mantém com seus amigos da Academia de Litros, em Perdizes; mas é provável que tenha lembrado mais o fracassado encontro entre o inexperiente jornalista de 23 anos e a inflamável Clarice Lispector, que o colocou em seu devido lugar sem deixar, contudo, de lhe roubar a inusitada caneta lilás que o moço comprara havia pouco no exterior.
Saí atropelado do meu encontro com Werneck.
Pensei saber uma coisa ou outra de crônica, uma coisa ou outra de jornalismo, e me vi sem freio de mão, ladeira abaixo, sendo engolido por rodado caminhão em plena via Dutra.
Em defesa de Werneck, contudo, preciso deixar claro ter se tratado de um atropelamento culposo, quando não se tem a intenção de atropelar.
No estúdio de podcast, ele distribuiu sorrisos, abraços, piadas. Parecia divertir a plateia antes mesmo de subir ao palco.
Chegou quinze minutos antes de mim e ficou de perninhas cruzadas na recepção tomando um cafezinho com o editor de video.
Falou-me da amiga cearense que biografou Bandeira; do pocket show do Gregório que lotou a Feira do Livro; da entrevista que fez com Isabel Allende em São Francisco; da pauta mau-caráter que ele conseguiu derrubar mesmo seguindo todas as orientações da chefia.
Não satisfeito por amassar minhas vértebras por mais de duas horas de entrevista, ainda me conduziu pela Paulista — da Gazeta ao Instituto Moreira Sales — contando-me dos bastidores da redação da Playboy e do dia em que convenceu a Abril a bancar seu curso de inglês não no Ibeu, mas em Nova York — nos tempos em que revista era um negócio da China.
Aos 81, andou serelepe pela avenida, a passos largos, brincando de rememorar o jornalismo e a crônica brasileira, enquanto eu apenas tentava me recompor, ainda dopado dos remédios que me injetaram na veia para estancar as fortes dores causadas pelo atropelamento.
Por sorte, tal incidente me ocorreu no último episódio desta temporada do podcast Na Fila do Pão Artesanal. Terei, portanto, algumas semanas — quiçá meses — para me recuperar das escoriações werneckianas e me preparar pra um segundo round.
Até lá, seguirei atravessando a vida à minha maneira: metodicamente pela faixa de pedestres. O que, contudo, não me impede de acabar arremessado para fora do meu bem-comportado roteiro.