Festa do Avante 2013 | Carvalhesa
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Festa do Avante 2013 | Carvalhesa
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Carvalhesa
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Em Março de 1985 a Comissão Política
do CC do PCP criou um grupo de trabalho com o objectivo de se tentar criar um
tema musical para a campanha eleitoral para as eleições legislativas
desse ano e que desse identidade sonora às diversas manifestações,
desde os carros de som até aos indicativos de tempos de antena.
A primeira ideia dessa equipa foi a de encontrar
um tema de música tradicional portuguesa a que se pudesse dar um tratamento
instrumental no estilo do que entretanto se começara a chamar MPP,
Música Popular Portuguesa. Vivia-se então um momento de
grande criatividade em termos de música popular, na esteira de Zeca
Afonso e Sérgio Godinho, os trabalhos dos Trovante, de Júlio
Pereira, de Fausto tinham criado uma sonoridade tão nova quanto portuguesa
e que conseguia um resultado inteiramente surpreendente: conquistava público
em todo o País e em todas as áreas culturais. Pelas suas raízes
no folclore despertava eco nas audiências culturalmente fixadas em raízes
e padrões rurais com a mesma facilidade com que desencadeava o entusiasmo
de plateias juvenis que de bom grado trocavam a batida rock por surpreendentes
linhas rítmicas bebidas em adufes e Zés-Pereiras.
Pensou-se assim procurar um dos temas tradicionais
que Lopes-Graça harmonizara para o Coro da Academia de Amadores
de Música, assegurando mais uma significante ligação entre
duas épocas e dois estilos, ligados pela comum paixão pelo património
popular e pela comum identificação ideológica e política
com os interesses do povo português. Optou-se em primeiro lugar por uma
conhecidíssima melodia, a do «Canta, camarada, canta».
Sabe-se como esta velha canção de contrabandistas transmontanos
adquirira durante o fascismo um cunho claramente progressista, não apenas
pelo facto de a Lopes-Graça se dever a sua divulgação,
mas também pelo uso do vocativo «camarada».
A ideia era que o arranjo fosse puramente instrumental,
mas defrontou-se a dificuldade de a melodia possuir letra tradicional e bem
conhecida entre os democratas - sendo praticamente inevitável que a sua
execução coral acabasse a generalizar-se. E se nada vinha de mal
ao mundo se num comício da então APU se cantasse «canta,
camarada canta/canta que ninguém te afronta», já parecia
polémico que no mesmo local se atroasse os ares afirmando «eu
hei-de morrer de um tiro/ou de uma faca de ponta»... E se não
seriam de prever críticas ao «viva a malta, trema a terra/daqui
ninguém arredou», as coisas poder-se-iam complicar com o «quem
há-de temer a guerra/sendo um homem como eu sou»...
Passou-se então à consulta do
livro «Cancioneiro Popular Português» de Michel
Giacometti (Círculo de Leitores. Lisboa, 1981). Piano em frente,
lá se foi procurando e, uma semana decorrida, pelas três da manhã,
a «Carvalhesa» deve ter soado pela primeira vez fora de Trás-os-Montes,
de onde é natural. Em Julho desse ano gravou-se a primeira versão
e editou-se um maxi-single de vinyl.
Como se explica no folheto que acompanhou essa
primeira edição, verificou-se, porém, ainda antes da gravação,
um «caso». Poucos dias depois da escolha, tinha-se procurado nos
discos dos «Arquivos Sonoros Portugueses», de Giacometti
e Lopes-Graça, se lá estaria a «Carvalhesa»
gravada em versão original e popular - e estava! Imediatamente se decidiu
pedir a Giacometti uma cópia da gravação e ter-se-ia
um excelente lado B do maxi-single.
Contudo, ao ouvir o disco dos «Arquivos»,
verificou-se com grande perplexidade que a «Carvalhesa» que
o gravador de Giacometti registara em Trás-os-Montes e ali se
reproduzia não era manifestamente aquela cuja pauta se encontrava no
livro e que se iria utilizar. O mistério seria decifrado dias mais tarde
pelo próprio Giacometti.
Testo de Ruben de Carvalho