O Computador Biohíbrido
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Computadores com neurónios humanos já estão à venda: onde termina a máquina e começa o vivo?
Desde 2025 é possível comprar um computador cujo componente mais invulgar não é um processador, mas um cultivo de neurónios humanos. À volta dele, os laboratórios mostram eletrónica que cresce com o tecido, dispositivos que se dissolvem no corpo e materiais que se curam sozinhos. Este artigo percorre o que já existe, o que ainda é só promessa e as perguntas que não convém adiar por muito mais tempo.
Um computador com células vivas lá dentro
O CL1 não parece ficção científica. Parece uma caixa. Foi apresentado em março de 2025 pela Cortical Labs, uma empresa de Melbourne, com um preço de lançamento de 35 000 dólares, e segundo a imprensa especializada as primeiras unidades começaram a ser expedidas no verão desse ano. Lá dentro, neurónios humanos cultivados a partir de células estaminais crescem sobre uma matriz de elétrodos que os estimula e regista a resposta. Um sistema interno de suporte de vida mantém as células nas condições de que precisam, e segundo a empresa consegue fazê-lo durante cerca de seis meses. Quem não quiser comprar a caixa pode alugar tempo de utilização à distância, num modelo a que a Cortical Labs chama «Wetware-as-a-Service».
Convém travar a imaginação logo à partida. Não há um pequeno cérebro a pensar dentro do computador. Há células vivas, elétrodos, eletrónica convencional e software, e é o conjunto que funciona como sistema. A empresa aponta aplicações em investigação médica e em computação de consumo muito baixo, e o neurocientista Brett Kagan, que descreveu a construção do CL1, referiu que o aparelho trabalha com apenas alguns watts.
O CL1 também não está sozinho. A 23 de abril de 2026, uma equipa de Princeton publicou na Nature Electronics um dispositivo em que cerca de 70 000 neurónios crescem dentro e à volta de uma malha tridimensional de fios metálicos microscópicos e elétrodos, protegida por um revestimento de epóxi tão fino que fica flexível o suficiente para conviver com células moles. A diferença para o que se fazia antes está na geografia. As culturas planas numa placa de Petri, ou os aglomerados em 3D observados do exterior, davam um acesso limitado. Aqui o sensor está lá dentro. A equipa acompanhou o sistema durante mais de seis meses, experimentou reforçar e enfraquecer ligações entre neurónios-chave e treinou um algoritmo para reconhecer padrões de impulsos elétricos. Em dois testes, um com pares de padrões espaciais distintos e outro com pares de padrões temporais distintos, o sistema distinguiu-os corretamente.
Vale a pena pôr isto à escala. Segundo a contagem de Azevedo e colegas (2009), que continua a ser a mais citada, apesar de discutida, o cérebro humano adulto tem em média 86,1 mil milhões de neurónios, com uma margem de 8,1 mil milhões para cima ou para baixo. Dividindo 86,1 × 10⁹ por 70 000 chega-se a cerca de 1,23 milhões. O dispositivo de Princeton tem, portanto, um número de neurónios da ordem de um milionésimo do de um cérebro humano. Distinguir dois padrões é uma boa proeza de engenharia, mas é útil ter esta escala presente quando as manchetes começam a falar em «cérebros».
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