Encontrar a Deus em tudo
Padre Pedro Willemsens - Meditações
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Quantas vezes Deus já esteve diante de nós sem que percebêssemos? Às vezes basta descobrir um detalhe para que tudo mude, como entrar numa casa comum e só depois perceber que se trata da residência oficial do prefeito. O lugar continua o mesmo, mas os olhos passam a enxergá-lo de outro modo. Assim também acontece na vida espiritual: Deus está presente na rotina, no trabalho, nos estudos, nas tarefas domésticas e nos encontros de cada dia. O grande desafio é aprender a reconhecê-Lo. Foi essa luz que São Josemaria recebeu em 2 de outubro de 1928: a santidade não está reservada a quem abandona o mundo, mas pode ser encontrada justamente no meio das ocupações mais comuns.
“Senhor, que eu veja.” A oração de Bartimeu tornou-se também a súplica de São Josemaria antes de compreender a missão que Deus lhe confiava. A vida de oração abre os olhos para aquilo que antes permanecia escondido. Como os discípulos de Emaús, que finalmente reconheceram Jesus, e como a samaritana, que começou vendo apenas um judeu junto ao poço e terminou reconhecendo o Messias, o cristão aprende pouco a pouco a perceber a presença divina por trás das aparências. É como aqueles antigos livros de “olho mágico”: a imagem sempre esteve ali, mas era preciso aprender a olhar. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória.” A glória de Deus pode ser encontrada justamente dentro da realidade mais concreta e cotidiana.
Esse olhar sobrenatural produz uma liberdade nova. As coisas deste mundo deixam de ocupar um lugar absoluto, porque passam, enquanto a amizade com Deus permanece para a eternidade. Ao mesmo tempo, esse desprendimento não leva a fugir das realidades humanas, mas a amá-las ainda mais. O trabalho, a pesquisa, a política, a amizade, a arte, o esporte, a família e até uma pia cheia de louça podem transformar-se em caminhos para Deus. “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” O cristão não despreza o mundo: procura descobrir nele aquele “algo divino” escondido, oferecendo cada tarefa e procurando realizá-la com amor e perfeição.
Daí nasce a vida contemplativa no meio do mundo: chegar ao ponto de olhar para tudo e encontrar Deus. Como o ferro atraído pelo ímã, a alma começa a voltar-se continuamente para Ele durante o trabalho, pedindo ajuda, oferecendo uma tarefa, agradecendo, reparando, recomeçando. Quanto maior o amor, maior também a liberdade, porque o coração encontrou o Bem para o qual deseja caminhar. Na preparação para o centenário do Opus Dei, em 2 de outubro de 2028, esse convite ganha ainda mais força: começar pela vida interior, aprender a reconhecer a presença amorosa de Deus e permitir que essa descoberta transforme cada instante da existência.
📚 Referências
• G. K. Chesterton: Ortodoxia
• São Josemaria Escrivá, Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá
• São João Paulo II: homilia da canonização de São Josemaria Escrivá: http://www.vatican.va/content/john-pa...