BikePacking #2: Entre Lama e Fé (Lisboa-Azinhaga-Fátima 2026)
Gravelante
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BikePacking #2: Entre Lama e Fé (Lisboa-Azinhaga-Fátima 2026)
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Saímos do Prior Velho ainda com pernas frescas, bicicletas limpas e aquela confiança ingénua de quem olha para 147 quilómetros no mapa sem perceber bem o que aí vem. O Tejo acompanhou-nos nos primeiros quilómetros, entre passadiços húmidos e o silêncio típico das manhãs cinzentas. O céu prometia dificuldades, mas ainda havia espaço para rir.
E rimos cedo.
À entrada de Azambuja, o meu cunhado decidiu transformar um simples semáforo num espetáculo improvisado. Agarrou-se ao poste enquanto os carros assistiam à performance involuntária. Foi o primeiro aviso de que os ténis SPD ainda iam cobrar a sua fatura ao longo da viagem.
Parámos no Dom Afonso para a combinação clássica: bifana e mini. Combustível português para decisões duvidosas. Ainda não sabíamos que os caminhos agrícolas seguintes estavam transformados num campo de batalha. Dias de chuva tinham deixado a lama pronta para engolir rodas, sapatos e dignidade ao mesmo tempo.
Caímos muitas vezes.
Houve momentos em que pedalar era mais difícil do que empurrar a bicicleta. A lama colava-se aos pneus como cimento fresco. O vento vinha frio, a chuva aparecia sem aviso e, mesmo assim, continuávamos. Porque há diferença entre fazer quilómetros e conquistar quilómetros.
Passámos pelo Baloiço do Peregrino e subimos a Santarém sem grande necessidade, daquelas decisões típicas de quem segue um track GPS sem questionar muito a vida. Mas foi aí que encontrámos os meus sogros e o Ricardo, também eles a caminho de Fátima, mas a pé. Houve reforço de hidratação, mais uma bifana, outra mini, Licor Beirão e até um mítico “licor de merda” que aqueceu mais a alma do que as pernas.
Faltavam poucos quilómetros para a Casa das Portas, na Azinhaga. Parecia controlado. Claro que não estava.
Conseguimos os dois cair em cima de entulho de tijolos praticamente na reta final do dia. A essa altura já não sabíamos se rir, reclamar ou simplesmente aceitar o destino. Os SPD continuavam a ensinar-nos humildade.
Quando chegámos ao alojamento, o banho soube a luxo. Lavámos bicicletas, roupa e parte do sofrimento do dia. Fomos recebidos com simpatia genuína, comida caseira e um esparguete à bolonhesa que naquele momento parecia digno de estrela Michelin.
Mas o dia ainda guardava mais uma queda épica. Desci dez degraus de uma vez, sem grande elegância, numa demonstração técnica que dificilmente entrará em algum vídeo motivacional de ciclismo. Sobrevivi. E acabámos a noite a ver o Sporting sagrar-se campeão europeu de futsal antes de adormecermos completamente destruídos depois de 100 quilómetros.
No segundo dia acordámos cedo, ainda doridos, mas com aquela sensação boa de quem sabe que está a viver algo especial. Seguimos pela Azinhaga, passando pela estátua de José Saramago. De certa forma, fazia sentido passar ali. Aquela viagem também tinha qualquer coisa de narrativa saramaguiana: dura, lenta, humana e cheia de pequenos absurdos.
A chuva voltou. Os trilhos estavam pesados, o frio entrava pelas luvas e o meu cunhado trocou de roupa várias vezes porque estava completamente ensopado. O meu casaco Siroko Ordino, oferecido pela minha mulher, tornou-se essencial. É nestes dias que percebemos o valor de um bom casaco, de comida quente e de pequenos confortos que normalmente ignoramos.
Pelo meio quase perdi o drone, que decidiu focar-se num senhor estacionado ao nosso lado em vez de regressar ao dono. Mais um momento de tensão desnecessária para juntar à coleção.
Na Chancelaria parámos num posto de apoio ao peregrino, onde o Agrupamento 65 do CNE estava de serviço. Conversámos um pouco e descobri que o meu Agrupamento 67 tinha passado por ali no ano anterior. Foi um daqueles encontros simples que dão outro sentido ao caminho.
Depois veio a serra.
A chuva apareceu outra vez precisamente quando começámos a subir. As pernas queimavam. O vento travava cada pedalada. Já não havia grandes piadas nem energia para conversar. Só esforço puro.
Mas era exatamente para isso que tínhamos vindo.
E depois, finalmente, Fátima.
A chegada ao Santuário não teve música épica nem grandes discursos. Teve silêncio. Daquele silêncio raro que só aparece quando o corpo já deu tudo e a cabeça finalmente abranda. Depois de quilómetros de lama, frio, quedas e chuva, chegar ali teve um peso diferente. Não apenas pela religião, mas pelo significado da viagem. Pela amizade. Pelo desafio. Pela resistência. Pela capacidade absurda que o ser humano tem de continuar a avançar mesmo desconfortável.
Almoçámos no “O Recinto”, já com outro sorriso e outro descanso no olhar. Comemos bem, como merecíamos, e aguardámos a boleia do meu pai.
Voltámos cansados, molhados e cheios de dores.
Mas voltámos maiores.
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