Especial Eleições #36: Lula terá de negociar com Congresso após resultado do 2º turno - 26/10/26
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A cientista política Marina Lacerda avaliou que a mobilização popular foi decisiva para a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, neste domingo (25). A professora do Mestrado em Poder Legislativo da Escola da Câmara participou de edição especial do Painel Eletrônico nesta segunda-feira (26), na manhã seguinte ao resultado das urnas.
Na avaliação de Marina, a virada histórica que permitiu a Lula ser eleito pela quarta vez, mesmo tendo saído atrás na disputa em primeiro turno, foi surpreendente. O presidente teve mais de quatro milhões de votos à frente do oponente, senador Flávio Bolsonaro. Lula terminou o segundo turno com 10 milhões e 400 mil votos a mais do que no primeiro turno; Flávio ganhou 3 milhões e 800 mil votos.
O presidente alcançou 51,78% dos votos válidos, o equivalente a 64,2 milhões de votos. Flávio teve 48,22% dos votos válidos, ou 59,8 milhões de votos.
“O Lula mobilizou diretamente o eleitorado contra os BBBs, bancos, bilionários e bets, para aprovar a reforma no Imposto de Renda e para aprovar o fim da escala 6/1. [...] E ele fez uma inflexão enorme, o que o levou a disputar essas eleições contra os Estados Unidos, por conta da linha do Donald Trump de ter a América Latina como seu quintal. E contra a interferência das redes sociais, sem apoio do sistema partidário e sem apoios de setores tradicionais da elite econômica. Então eu acho que esse é um feito extraordinário, na verdade, e que ainda vai ser bastante estudado, mas de fato essa aposta de uma mobilização popular com base em interesse só do povo, ela funcionou,” analisou a cientista política.
No segundo turno, o índice de abstenção diminuiu e mais brasileiros decidiram ir às urnas. A taxa caiu de 21,08%, correspondente a 33,4 milhões de ausências, para 19,22%, equivalente a 30,5 milhões de abstenções.
Para Marina Lacerda, o novo mandato de Lula terá o desafio de continuar mobilizando as ruas por pautas populares, já que, no Congresso, o PL, principal partido de oposição, tem maioria na Câmara e no Senado. Ela entende que o governo precisará dialogar com partidos de centro. E aposta na industrialização como agenda comum entre setores da esquerda e da direita, com olhar especial para juventude que se colocou politicamente nas redes sociais e nas avenidas.
“As políticas sociais, no governo Lula, elas conseguiram melhorar a vida das pessoas, mas dentro de um determinado limite, porque a estrutura produtiva do Brasil não mudou. A gente tem uma estrutura produtiva centrado na agroexportação e nos serviços. Empregos de qualidade, um bem-estar social, isso viria de a gente ter uma estrutura produtiva centrada em indústria, que a gente não tem,” disse Marina.
Para a pesquisadora, temas mais polarizados, como segurança pública, poderão encontrar mais resistência no Congresso.
Na relação federativa, a cientista política destacou que Lula terá mais governadores de oposição do que aliados. Nesse cenário, poderá produzir consensos ou ampliar os conflitos institucionais.
Com o resultado do segundo turno, o PL conquistou seis governos estaduais. O PSD, partido de centro, ficou com cinco comandos estaduais. PT, Republicanos e PP alcançaram quatro governos cada. PSDB ficou com dois e MDB e Podemos, com um.
“O eleitor, ele elegeu congressistas de direita, ele elegeu governadores de direita e elegeu o presidente Lula. E isso coloca para gente o tamanho desse antagonismo, coloca a gente numa posição hoje que é difícil de prever o que vai acontecer. Haverá um lado otimista, que pode dizer que haverá um equilíbrio de forças que poderá trazer consensos. Do lado mais pessimista, vai haver uma guerra institucional maior do que já houve, nesses próximos anos,” afirmou Marina.
No plano internacional, a especialista previu que poderá continuar um antagonismo com os Estados Unidos. “Para a comunidade internacional, o que você olha é uma posição dissonante do presidente Trump ali. Do ponto de vista da comunidade internacional e de quem defende um mundo multipolar, aquele mundo ainda das Nações Unidas, é positiva (vitória do Lula).”
Apresentação - Ana Raquel Macedo
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