Moçambique: Violência, Tribalismo e a Luta por Unidade
Severino Ngoenha
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Moçambique: Violência, Tribalismo e a Luta por Unidade
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Severino Ngoenha
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Quando há dias nos reunimos no funeral do Bispo Dom Osório, em Quelimane, uma frase dita no enterro ecoou como um aviso extremamente grave para a nossa consciência coletiva: "Nós, os Macuas, nos vamos".
Esta declaração dolorosa obriga-nos a confrontar uma verdade que frequentemente evitamos: a progressiva erosão da moçambicanidade – aquele sonho de destino comum desenhado por Eduardo Mondlane e que serviu de pedagogia incessante durante a governação de Samora Machel. Longe de ser um dado adquirido, a nossa unidade nacional corre o risco de desmoronar, dando lugar a perigosos fechamentos étnicos, tribais e regionais.
Nesta prelecção, debruço-me sobre as múltiplas latitudes de violência que assolam o país. Não apenas o conflito de Cabo Delgado, que há nove anos devasta o Norte, mas a violência moral do quotidiano: o sofrimento nos transportes públicos, as vias degradadas, a precariedade da habitação e, acima de tudo, o flagelo da fome que condena mais de 70% dos nossos jovens. Quando as instituições de um Estado não garantem o essencial para a sobrevivência, a sociedade fragmenta-se numa mentalidade de "cada um por si" (o pandar, o nhonga, o desenrascar), abrindo as portas ao regionalismo político e às tensões fratricidas que devastaram nações como a Nigéria (em Biafra) ou o Ruanda.
A sobrevivência de Moçambique não reside no asseio militar das fronteiras, mas sim na restauração urgente de uma ordem moral e de ações corretivas visíveis de redistribuição de direitos e bens. Se não formos capazes de reconstruir esta comunidade de destino onde cada moçambicano sinta que o seu esforço produz frutos reais na sua própria terra, continuaremos vulneráveis às forças estrangeiras que se aproveitam da nossa fraqueza para saquear os nossos escassos recursos.