Mãe, Já Tenho Casa
André Perdigão
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Mãe, Já Tenho Casa
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André Perdigão
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Mãe, Já Tenho Casa — uma canção otimista sobre a crise da habitação em Portugal.
Toda a gente conhece a história: quase trinta anos no quarto de miúdo, um T0 a mil e cem euros, trinta e três pessoas na mesma visita, fiador, caução, três meses adiantados. Esta canção começa aí — mas não fica aí. É sobre o dia em que se liga à mãe a dizer "já tenho casa".
Não é uma canção de protesto, é uma canção de futuro. Portugal já resolveu crises maiores: depois do 25 de Abril, o SAAL e as cooperativas puseram milhares de famílias a construir os seus bairros; o Siza desenhou casas para quem mais precisava. Há centenas de milhares de casas vazias à espera de luz, há gruas outra vez nas nossas ruas, há cooperativas, madeira e aço, cidades como Viena que mostram que é possível. Os nossos avós tiveram Abril. Nós temos esta canção — e a certeza de que ninguém vai ficar sem chão.
📝 Letra
Mãe, já tenho casa
Chave, chave na mão
Gruas na minha rua
Ninguém fica sem chão
Quase trinta anos no quarto de miúdo
Poster do Euro, ainda me dói tudo
T0 em Arroios, mil e cem por mês
Visita às sete, éramos trinta e três
Cada metro quadrado, três ordenados
Fiador, caução, três meses adiantados
Cofres de chaves em cada portão
Nenhuma chave cabe na minha mão
Não há casas? Tens toda a razão
Bora lá fazê-las, mão na massa, irmão
Mãe, já tenho casa
Chave, chave na mão
Gruas na minha rua
Ninguém fica sem chão
Pedra, telha
Porta, janela
Luz acesa nela
Abril já fez casas, pergunta ao Siza
Um bairro inteiro p'ra quem mais precisa
Setecentas mil vazias? Já não, já não
Acende-se a luz em cada rés-do-chão
Cooperativa: a malta junta-se e constrói
Madeira e aço, três semanas, nem dói
O meu irmão voltou de Genebra
A mãe chora, a rua celebra
Geração à rasca? Olha p'ra nós
Jantar lá em casa, na nossa, a sós
Mãe, já tenho casa
Chave, chave na mão
Gruas na minha rua
Ninguém fica sem chão
Pedra, telha
Porta, janela
Luz acesa nela
Pedra, telha, tábua, trave
Licença dada, toma a chave
Viena fez, Lisboa faz
Porto, Braga, Faro, mais
Vinte e seis e sais de casa
Sopa da mãe numa caixa
Os meus avós tiveram Abril
Eu tenho esta canção
Meia-noite e vinte, a rádio acendeu o país
Cabemos todos, cabemos todos
Mãe, já tenho casa
Chave, chave na mão
Gruas na minha rua
Ninguém fica sem chão
Pedra, telha
Porta, janela
Luz acesa nela
Três da manhã. Estou a dormir. Em casa.