Salvador, 1905: o trabalho que subia e descia entre o cais e a Cidade Alta
Klara Porter
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Salvador, 1905: o trabalho que subia e descia entre o cais e a Cidade Alta
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Cinco da manhã na Cidade Baixa de Salvador. Numa esquina perto do cais, homens esperam serviço sentados em tripeças, uma mulher desce a ladeira com uma panela de mingau na cabeça, e um caixeiro grita da porta do armazém: “Chama, ali, um ganhador no canto.” Lá em cima fica a outra metade da cidade. Entre as duas, a ladeira — e uma torre de ferro onde sobe quem pode pagar a passagem.
Neste episódio, atravessamos a Cidade Baixa entre 1890 e 1920 com os ganhadores e as ganhadeiras: os cantos de trabalho nas esquinas e nas escadas do cais, o capitão escolhido pelos seus e aprovado pela polícia, a pedra de ralar e o tabuleiro, o saveiro que chegava do Recôncavo, o elevador e o bonde, as posturas de 1912 e o cais novo de 1913. E seguimos o homem que anotou quase tudo isso: Manuel Querino, pintor de paredes, professor e escritor negro nascido em Santo Amaro.
Quem fala em cada documento, a gente diz. Onde as fontes não batem, contamos as duas versões. E onde o papel para — como no preço do elevador Lacerda naqueles anos —, a gente avisa.
📌 O que você vai descobrir
• Os cantos por dentro: o que os ganhadores faziam enquanto esperavam serviço, a camisa numerada do regulamento policial de 1880, o livro de matrícula de 1887 (1.703 ganhadores em 89 cantos, 822 deles africanos) e a posse do novo capitão, carregado numa pipa cheia de água do mar.
• O tabuleiro: a pedra de ralar descrita por Manuel Querino, o mingau das cinco da manhã e o arroz de haussá das três da tarde, os pregões em nagô, o laço com o candomblé e a ganhadora Antonia Maria da Silva, presa um mês antes da Lei Áurea.
• Subir e descer: o Elevador Hidráulico da Conceição (1873), os planos inclinados, o elevador do Taboão a 100 réis (1896), o bonde elétrico de 1897 — e por que a carga continuava indo pela ladeira, na cabeça de alguém.
• A virada e o que ficou: as posturas de 1912 (tela de arame, licença do marido, crianças fora da rua), a manchete de 1916, o cais novo de 1913, a sociedade dos carregadores de 1912, a greve geral de 1919, o Mercado Modelo — e o que continua de pé hoje.
Conteúdo educativo e histórico.
📚 Principais fontes
• Manuel Querino, “A raça africana e os seus costumes na Bahia” (1916) — Livraria Progresso Editora, Salvador
• João José Reis, “De olho no canto: trabalho de rua na Bahia na véspera da Abolição”, Afro-Ásia, n. 24, 2000 (livro de matrícula dos cantos, 1887–1889)
• Alberto Heráclito Ferreira Filho, “Desafricanizar as ruas: elites letradas, mulheres pobres e cultura popular em Salvador (1890–1937)”, Afro-Ásia, n. 21–22, 1998–1999 (posturas municipais e “A Tarde”)
• Bruno José Rodrigues Durães, “Trabalho de rua, perseguições e resistências: Salvador no final do século XIX”, Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, v. 4, n. 7, 2012 (regulamento policial de 1880, mapas de presos e “Jornal de Notícias” — Arquivo Público do Estado da Bahia)
• Aldrin A. S. Castellucci, “Flutuações econômicas, crise política e greve geral na Bahia da Primeira República”, Revista Brasileira de História, v. 25, n. 50, 2005
— e outras fontes.
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