O JOGO DA NAVALHA
Coletivo Volta do Mundo
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O JOGO DA NAVALHA
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Sinopse – Antes do berimbau, a navalha era o maior símbolo da capoeiragem. Navalhistas e capoeiras eram o terror da sociedade escravista. Séculos depois, São Luís do Maranhão permanece um dos maiores redutos de navalhistas do Brasil .
Você já viu o jogo da navalha?
Synopsis - The jackknife (navalha) was the most famous symbol of capoeira, later replaced by the berimbau. Skilled jacknife and capoeira fighters were the nightmare of society during slavery times in Brasil. Centuries later São Luís, capital of the north-eastern state of Maranhão, remains one of the biggest strongholds of jacknife fighters in Brazil. Are you ready to see the jacknife in action?
Prêmios - melhores atores e melhor trilha no 46 Festival Guarnicê de Cinema (MA); melhor curta de ficção no 9 Festival Curta Campos do Jordão (SP)
O Jogo da navalha – por Roberto Pereira
Pouco se sabe acerca do uso da navalha na capoeira antiga. Alguns estudiosos sugerem sua origem a uma influência portuguesa. Outros, a uma influência africana, haja vista que os africanos dominavam no Brasil o ofício de barbeiro-sangrador, sendo portanto, habituados ao manejo da navalha.
Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que se tratava de uma das diversas armas - como pedras, paus, facas, cacetes - usadas pelos capoeiras em suas escaramuças pelas ruas, becos e praças de diversas cidades do Brasil até meados do século XX.
Na verdade, a navalha não era de uso exclusivo dos capoeiras. Basta dar uma vasculhada nas páginas policiais da imprensa ao longo dos séculos XIX e grande parte do XX para se ter a dimensão do uso por populares – tanto homens, quanto mulheres –
dessa temida arma em conflitos. Em outras palavras, nem todo navalhista era um capoeira. Todavia, no século XIX a navalha se tornou uma arma tão associada aos capoeiras, que segundo o historiador Carlos Líbano Soares, especialista no assunto da capoiragem antiga, ainda naquele século, transformou-se no maior símbolo da prática.
Bem pouco conhecida na atualidade, mesmo entre os capoeiras, a navalha foi lentamente perdendo espaço no meio da capoeiragem. Seu declínio ocorreu paralelamente à emergência de uma capoeira desportiva e voltada para o mercado de entretenimento, a partir de meados das primeiras décadas do século XX, na Bahia e no Rio de Janeiro, em particular.
Essa nova capoeira, moderna, em busca de novos públicos e de clientes que pudessem pagar para vê-la ou para aprendê-la, progressivamente se adaptou aos ringues, palcos e espetáculos. Essa adaptação aos tempos modernos trouxe consigo uma releitura de seu passado, visto como violento, sangrento e associado às temidas maltas cariocas do século XIX. Releitura que iria desembocar, já por volta do início do século XXI, em um discurso de “capoeira cidadã”, em que os capoeiras não podem ter contato físico na roda e em que qualquer sinal de violência é apontado como algo alheio à prática. Nada mais falacioso!
Assim, ainda no século XX, o berimbau destronou a navalha como o maior símbolo da capoeira. A despeito desse quase completo apagamento da navalha, seu uso e manejo por capoeiras, prática que, como se vê, remonta aos tempos da escravidão, não desapareceu. Alguns raros mestres conseguiram preservar e transmitir esse ensinamento ancestral a alguns poucos discípulos que se incumbiram de perpetuar a tradição do jogo da navalha. Nesse cenário nacional, São Luís, do Maranhão, se destaca como um dos maiores, se não o maior, redutos de navalhistas do Brasil.
Esse documentário ficcional que agora disponibilizamos ao público é uma pequena contribuição para trazer à tona a importância da navalha na história da capoeira. Além disso, trata-se de uma forma de apresentar ao público o próprio jogo da navalha, amplamente desconhecido.
Iniciamos gravações do filme em 2018 de forma completamente independente e concluímos em 2023, quando conseguimos um pequeno recurso para sua finalização. Para sua realização, contamos com a participação fundamental e indispensável de dois grandes navalhistas maranhenses, o mestre Kaká Serafim (Cláudio Serafim) e o contramestre Jorcelso Sousa, herdeiros de uma linhagem de navalhistas que tem como ancestral outro exímio navalhista e mestre de capoeira: Alberto Euzamor.
Que o filme proporcione um bom debate. E que as novas gerações conheçam e contribuam para a preservação desse que é mais um elemento fantástico da cultura negra brasileira.
Grande Axé
Roberto Pereira é diretor de Cinema pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro (RJ) e Doutor em História Comparada pela UFRJ. É autor de Rodas Negras – capoeira, samba, teatro e identidade nacional (Perspectiva, 2023). Dirigiu e roteirizou filmes exibidos em festivais de cinema e eventos estaduais, nacionais e internacionais. Foi Visiting Fellow no Departamento de História da Universidade Harvard.