OS INICIADOS NOS MISTÉRIOS NÃO MORREM
Táta Nganga Kamuxinzela
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OS INICIADOS NOS MISTÉRIOS NÃO MORREM
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OS INICIADOS NOS MISTÉRIOS NÃO MORREM
Por Táta Nganga Kamuxinzela
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Há duas saídas para a morte, e a tradição costuma confundi-las. A primeira é a transcendência: a alma abandona a matéria e sobe a outro plano: o inteligível de Platão, o céu dos cristãos. Aqui, salvar-se é partir; a carne e o mundo ficam para trás como prisão ou degredo. A segunda é a deificação: a alma não parte: permanece, transfigurada, no próprio plano da matéria, como potência ctôni-ca ou ancestral. Aqui, vencer a morte não é evadir-se do mundo, mas tornar-se, dentro dele, uma divindade que os vivos cultuam.
O Mundo Antigo conheceu bem a diferença. Os Mistérios (de Elêusis aos ritos órfico-báquicos) não prometiam a fuga do corpo, mas um destino bem-aventurado entre os mortos: nas lâminas de ouro, o iniciado ouve-se saudar θεὸς ἐγένου ἐξ ἀνθρώπου: «de homem, tornaste-te deus». O culto dos heróis fazia do morto insigne uma potência que permanecia junto ao túmulo, ope-rante e temível. E a teurgia de Jâmblico levou o argumento ao limite: a alma diviniza-se não por abandonar o cosmos, mas por operá-lo ritualmente de dentro. Deificar-se é ficar, e reinar.
É a mesma teologia que as culturas afro-brasileiras guardam com precisão in-tacta. O morto não se dissolve num além abstrato: torna-se ancestral, égún assentado, potência que responde do outro lado da Kalunga sem deixar de per-tencer a este mundo. O ancestral cultuado, o Exu tutelar, a alma feita divinda-de ctônica: eis a deificação, e não a transcendência. E Cipriano, que de mago pagão se fez santo e de santo se fez Exu, é o seu símbolo por excelência: a alma que não subiu, mas se assentou.
Convém, porém, desfazer o último equívoco. A deificação não é uma conquista metafísica que a alma busca por si; é um ato. É o homem que deifica deuses, almas ancestrais, lugares, objetos, estados e animais. A divindade não se al-cança pela ascensão do espírito, mas pelo direcionamento ritual da alma, exe-cutado por um sacerdote. O àsèsè, na Quimbanda e no Candomblé, é precisa-mente isso: o rito que processa o morto e o instala como ancestral, a mão do operador fazendo, do defunto, um deus. O iniciado nos mistérios não morre porque alguém, com técnica e fundamento, o faz não-morrer.
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