Pensar com o corpo é como a histeria (cont.) | Ferenczi, Diário Clínico – 10 jan. 1932 | Aula 8
Pedro Rocha de Oliveira
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Pensar com o corpo é como a histeria (cont.) | Ferenczi, Diário Clínico – 10 jan. 1932 | Aula 8
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Nesta aula do seminário sobre o Diário Clínico de Sándor Ferenczi, continuamos a leitura da anotação de 10 de janeiro de 1932, examinando a ideia de um corpo capaz de pensar e de exprimir experiências por meio de uma “linguagem de órgão”. Retomamos a hipótese de que a violência traumática desperta forças psíquicas primordiais às quais o organismo recorre quando não é possível transformar a realidade ou fugir dela. A adaptação assume então uma forma autoplástica: o sujeito transforma a si próprio para sobreviver. Ferenczi descreve, nesse contexto, um corpo “semifluido”, no qual a distinção entre corpo e psiquismo perde sua rigidez. Nisso, evoca a noção freudiana de “Linguagem de Órgão”.
Para esclarecer a expressão “linguagem de órgão”, abrimos um parêntese dedicado ao texto O Inconsciente, de Freud, publicado em 1915. O ponto de partida é o trabalho de Karl Abraham sobre as diferenças entre a histeria e a demência precoce, posteriormente denominada esquizofrenia. Enquanto as neuroses de transferência se caracterizam pelo investimento libidinal dos objetos, a esquizofrenia envolveria uma retirada desses investimentos e uma regressão narcisista. Examinamos então os exemplos clínicos de Victor Tausk retomados por Freud. Na histeria, o corpo simboliza um desejo recalcado, e o sentido do sintoma precisa ser alcançado pela interpretação. Na esquizofrenia, a relação entre a experiência corporal e seu sentido verbal é explicitada pelo próprio paciente. Essa diferença foi relacionada à distinção freudiana entre representação de coisa e representação de palavra: na tentativa de reconstruir uma realidade da qual a libido se retirou, as palavras são reinvestidas e passam a organizar os objetos. Ferenczi acrescenta uma terceira modalidade de linguagem de órgão: a repetição traumática, na qual o corpo revive não um desejo inconsciente, mas uma experiência real tornada psiquicamente inacessível. Ferenczi parece sugerir que as três modalidades envolveriam uma regressão a uma plasticidade corporal primitiva, embora as forças mobilizadas pelo trauma pertençam a um plano ainda anterior ao narcisismo.
Na parte final, discutimos como Ferenczi embaralha a separação freudiana entre neuroses de transferência e neuroses narcísicas através do recurso explicativo da autoplasia. Assim mesmo, há situações psíquicas extremas em que saídas específicas são buscadas para a auto-organização. Quando toda ação sobre o mundo se torna impossível, a renúncia ao controle e a própria destruição do Eu podem ser vividas como alívio ou libertação. Para sobreviver, o sujeito conserva dentro de si a imagem do Eu destruído que lhe permitiu deixar de sofrer. O desafio clínico consiste em reconhecer essa identificação com a destruição como uma solução de sobrevivência, sem reduzi-la a um apego à doença.