Por que o mercado financeiro não entende a economia real
Instituto de Economia da Unicamp
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O ultraliberalismo fornece uma doutrina econômica para a extrema direita? Maria da Conceição Tavares distingue liberalismo e ultraliberalismo e questiona quem passou a formular as políticas econômicas no final do século XX.
Neste corte do curso de Economia Política, ministrado no Instituto de Economia da Unicamp em 1992, Conceição Tavares analisa a transformação do pensamento econômico e social. Segundo a economista, os intelectuais perderam espaço como formuladores independentes de paradigmas, enquanto a produção das ideias passou a circular pela burocracia estatal, pela imprensa e pelas grandes corporações.
A aula permite formular uma questão contemporânea: o que acontece quando a condução da economia é entregue a especialistas formados prioritariamente pela lógica das finanças e dos mercados?
Conhecer preços de ativos, investimentos e operações financeiras não equivale necessariamente a compreender uma economia nacional. A macroeconomia envolve emprego, renda, investimento produtivo, inflação, crédito, política fiscal, política monetária, estrutura produtiva, relações externas e capacidade estatal de coordenar o desenvolvimento.
Quando a economia é reduzida às expectativas do mercado financeiro, o Estado tende a aparecer apenas como fonte de despesas, impostos e desequilíbrios fiscais. Desaparecem de parte do debate suas funções como investidor, planejador, regulador, financiador, produtor de infraestrutura e garantidor de direitos sociais.
Essa discussão ganhou nova dimensão no Brasil com a aproximação entre a extrema direita e uma agenda econômica ultraliberal. Durante a ascensão do bolsonarismo, o discurso autoritário e conservador foi associado a propostas de privatização, redução do gasto público, enfraquecimento das políticas sociais e transferência das decisões econômicas para uma esfera apresentada como exclusivamente técnica.
A combinação produz uma tensão: enquanto a extrema direita mobiliza nacionalismo, autoridade e soberania no plano político, sua agenda econômica pode limitar os instrumentos pelos quais o Estado exerce essa mesma soberania.
Na aula, Conceição Tavares situa Alfred Marshall e John Maynard Keynes na tradição liberal inglesa e apresenta Veblen, Schumpeter e Keynes como grandes institucionalistas. Em seguida, distingue essa tradição do ultraliberalismo associado a Pareto, Walras, von Mises e Hayek.
Para a economista, o pensamento ultraliberal se caracteriza pelo predomínio do cálculo racional abstrato. Essa abordagem tende a tratar mercados e indivíduos isoladamente, reduzindo o espaço dedicado às instituições, aos conflitos sociais, à estrutura produtiva e à intervenção macroeconômica do Estado.
Francis Fukuyama e a tese do “fim da história” aparecem como outro exemplo da aproximação entre produção intelectual e estruturas de poder. Conceição Tavares questiona a repercussão alcançada pela ideia de que a democracia liberal e a economia de mercado representariam o ponto final da evolução política e ideológica.
A associação com a extrema direita brasileira constitui uma leitura contemporânea proposta pelo canal. A gravação original é de 1992 e não trata do bolsonarismo nem da conjuntura política atual.
Participante:
Maria da Conceição Tavares — economista e professora do Instituto de Economia da Unicamp
Curso:
Economia Política
Instituto de Economia da Unicamp
Gravação histórica de 1992
Vídeo completo: • New Deal, guerra e a ascensão dos Estados ...
Capítulos:
00:00 Pensamento econômico e social no século XX
00:28 Marshall e Keynes entre os liberais ingleses
00:46 A economia migra para a burocracia política
01:15 O declínio dos intelectuais críticos
01:27 Poder político sem pensamento econômico?
01:53 Imprensa, corporações e cooptação intelectual
02:48 Fukuyama e a tese do fim da história
03:17 Keynes, Schumpeter e o institucionalismo
03:45 Liberalismo, ultraliberalismo e neoliberalismo
04:29 Pareto, racionalidade econômica e sociedade de massas
English summary:
Maria da Conceição Tavares examines the decline of independent intellectuals and distinguishes English liberalism, institutionalism and ultraliberalism. This historical lecture offers a framework for discussing the contemporary alliance between far-right politics and market-centred economic agendas, as well as the difference between financial expertise and macroeconomic thinking.
Resumen en español:
Maria da Conceição Tavares analiza la pérdida de autonomía de los intelectuales y distingue entre liberalismo inglés, institucionalismo y ultraliberalismo. La clase permite discutir la alianza contemporánea entre la extrema derecha y las agendas económicas centradas en el mercado, así como la diferencia entre conocimiento financiero y pensamiento macroeconómico.
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