Zico por Jorge Curi ● Moments Impossible To Forget
Joga bonito Mengão
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Zico por Jorge Curi ● Moments Impossible To Forget
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A Arte do Grito Imortal: Uma Resenha sobre Jorge Cury, Zico e a Invenção da Paixão Rubro-Negra
Houve um tempo em que o futebol era feito de ondas curtas, chiados de rádio e vozes que transformavam lances em epopeias. Nesse universo sonoro, poucos atingiram o patamar de Jorge Cury, o locutor cuja voz “trepidante”, nas palavras de um fã, “arrepiava até mesmo quando o gol era contra o seu time” . Ao lado de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, Cury construiu não apenas a narrativa de uma era de ouro, mas a própria memória afetiva de milhões de brasileiros que, como o cronista rubro-negro, sabiam que “maior do mundo” era como Jorge Cury chamava o Maracanã e que “logo ele estaria gritando um gol de Zico” .
A Voz que Vinha do Rádio
Jorge Cury não era apenas um narrador; ele era um maestro da emoção. Em uma época sem internet e com a televisão ainda em expansão, o rádio era a janela para o mundo, especialmente para o futebol. Cury dominava a arte de criar expectativa, com seus bordões que se tornaram assinatura. O “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” não era apenas uma informação; era um ritual que anunciava que algo grandioso estava prestes a acontecer .
Sua técnica era a de um tenor do esporte. Ele não narrava apenas os movimentos; ele cantava os lances, dosava o volume, alongava as vogais e explorava o silêncio para, no momento do clímax, explodir em um grito de gol que se tornava uma catarse coletiva. Era a “hora do pato”, como ele mesmo definia os momentos decisivos .
O Gol que Durou 20 Segundos
A sintonia perfeita entre a genialidade de Zico em campo e a voz de Jorge Cury atingiu seu ápice na final da Taça Libertadores de 1981. No dia 23 de novembro, no Estádio Centenário, em Montevidéu, o Flamengo enfrentava o Cobreloa, do Chile. Após uma vitória e uma derrota, o título seria decidido em uma terceira partida.
Zico já havia marcado um gol, mas foi aos 39 minutos do segundo tempo que a história se imortalizou. Uma falta perigosa. A cena está gravada na mente dos que a ouviram: “Prepara-se Zico defronte a tribuna Amsterdã, vai bater o Zico, coloca-se a barreira um pouco a frente do pênalti, correu Zicão atirou é gol gooooooooooooooolllllllllllllllll” .
O grito de “gol” de Jorge Cury não durou dois ou três segundos. Estendeu-se por impressionantes 18 segundos . Foi um dos gritos mais longos e emocionantes da história do rádio esportivo mundial, uma demonstração de fôlego e, acima de tudo, de pura paixão. Ele narrou: “Zicão, camisa número 10. Agora no placar. Flamengo 2, de Zico, camisa 10, Cobreloa 0” . Aquele grito eternizou-se não apenas como o anúncio do título inédito, mas como a personificação sonora da genialidade do camisa 10.
Uma Sociedade de Gênios
A relação entre Jorge Cury e Zico transcendeu a de um mero locutor e seu objeto de trabalho. Eles foram parceiros em uma façanha que ajudou a transformar o Flamengo em um fenômeno de massa nacional. Se Zico era o “Galinho de Quintino”, o craque que encantava com seus dribles, passes precisos e cobranças de falta letais , Cury era o arquiteto da legenda, aquele que traduzia a magia em palavras que ecoavam nas salas, nas praças e nos corações dos torcedores.
A parceria se repetiu em outros momentos históricos. No Mundial Interclubes de 1981, contra o Liverpool, Cury narrou o primeiro gol de Nunes, fruto de um lançamento magistral de Zico, com a mesma emoção vibrante: “É gol! Gol! Nunes! Nunes! Nunes, camisa número 9. Quando eram decorridos 13 cravados de luta na primeira etapa” . Nas conquistas do Campeonato Brasileiro de 1980 e na vitória sobre a Escócia na Copa do Mundo de 1982, sua voz estava lá, eternizando cada feito do Galinho .
O Legado de uma Emoção Incomparável
Hoje, o futebol é transmitido em alta definição, com dezenas de câmeras e análises táticas instantâneas. Mas, para aqueles que viveram a era de ouro do rádio, nenhuma tecnologia supera a emoção de ouvir uma narração de Jorge Cury. Ele era, como um artigo definiu, um dos “grandes tenores na arte de cantar é gollllll” .
A “fantástica capacidade” de Cury, mencionada no tema desta resenha, não era apenas o fôlego para um longo grito, mas sua habilidade única de transformar um evento esportivo em uma experiência sensorial completa. Ele fazia o ouvinte ver o gramado, sentir a tensão da torcida e explodir de alegria no momento do gol.
Ao ouvir as antigas gravações, entende-se por que Zico, ao completar 60 anos, pediu para ouvir exatamente a narração de Jorge Cury para seu gol do título da Libertadores . Era a trilha sonora de seu momento mais glorioso. Zico deu forma àquela jogada, mas foi Jorge Cury quem lhe deu a alma imortal, garantindo que, enquanto houver um torcedor disposto a ouvir, o gol de falta no Centenário continuará sendo marcado a cada vez que alguém apertar o play e ouvir aquele “goooooool” ecoar pelo tempo.