Da Serra do Calvo à Zambujeira do Mar: As Memórias Vivas de D. Maria da Conceição Ferreira (05/2009)
Espaço Memória / Associação Maria Matos
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Da Serra do Calvo à Zambujeira do Mar: As Memórias Vivas de D. Maria da Conceição Ferreira (05/2009)
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Na Serra do Calvo nasceu e cresceu, e foi com o casamento que rumou à Zambujeira do Mar, ambas as aldeias da Lourinhã, trazendo na bagagem as vivências de uma terra que moldou o seu olhar sobre o mundo. Nascida para lá do tempo da pressa, a D. Maria da Conceição Ferreira abre-nos a porta para um rico património imaterial, onde cada recordação é um retrato vivo de como se vivia antigamente nestas comunidades do concelho.
Nas suas memórias, o ciclo do ano guardava momentos de profunda união, com destaque para o Natal, uma época em que o Menino Jesus era a figura central à volta da qual se reunia a família e a fé. Mas a vida era, sobretudo, feita de trabalho duro no campo. As mulheres levavam consigo os filhos bebés e pequenos para as lides dos campos, criando uma rede de entreajuda onde os mais velhos e os vizinhos ajudavam os mais novos. A lida diária dependia também dos humores do céu, e o saber ancestral de olhar para o tempo contava com a sabedoria dos moleiros, cuja palavra era lei na hora de prever a chuva ou o bom tempo. A roupa lavava-se à mão, tendo o rio do Louriçal um papel especial como ponto de encontro e de trabalho das gentes da terra.
Para gerir a economia familiar, as donas de casa criavam perus, frangos e coelhos, uma economia de subsistência e de poupança que ajudava a compor o orçamento e a gerir a casa com engenho. E porque a vida se fazia de raízes sólidas, a construção das habitações típicas da época exigia um esforço coletivo. A entreajuda e a troca de dias de trabalho entre vizinhos e familiares eram correntes. As paredes levantavam-se com o que a terra dava: a pedra, a cal e a terra eram as matérias-primas de eleição. Se a pedra de S. Bartolomeu dos Galegos era amplamente procurada, também as das Cuncas, uma zona rica em pedra na própria Zambujeira do Mar, se destacavam como local de eleição para a extração deste material indispensável para erguer as casas típicas de então.
Entre saberes tradicionais, rostos da comunidade e os cheiros de um tempo passado, o testemunho da D. Maria da Conceição Ferreira preserva a alma e a identidade de um Portugal rural que continua bem vivo na memória.