Pudor: esconder para mostrar
Padre Pedro Willemsens - Meditações
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Pudor: esconder para mostrar
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O pudor nasce do reconhecimento de que aquilo que é valioso não deve ser tratado de qualquer maneira. Deus se revela e, ao mesmo tempo, permanece envolto em mistério, como uma luz inacessível que nos permite enxergar sem jamais possuir completamente. A própria beleza funciona assim: uma obra perde força quando explica tudo e ganha profundidade quando sugere, desperta e conduz. Também a intimidade humana possui algo de sagrado. O Cântico dos Cânticos chama a amada de “jardim fechado”, “nascente fechada” e “fonte selada”, imagens de uma riqueza que não está abandonada à passagem de qualquer pessoa, mas protegida porque possui valor.
A Assunção de Nossa Senhora mostra que o caminho para Deus não é o da conquista orgulhosa, como na Torre de Babel, mas o de deixar-se conduzir por Ele. Para entrar no santuário é preciso preparação, pureza de mãos e de coração, como recorda o salmo. Até a roupa pode expressar exteriormente esse respeito, como no episódio de quem, vestido para a praia, preferiu permanecer do lado de fora de uma igreja por reconhecer que aquele espaço merecia outra disposição. Mas o pudor vai muito além da roupa. Ele protege o corpo, os sentimentos, os segredos, a intimidade familiar e até a própria vida espiritual. Nem tudo precisa ser publicado, contado ou exposto. Há experiências que crescem justamente porque permanecem guardadas, como a “vida escondida com Cristo em Deus”.
O pudor também não é medo do corpo, desprezo da sexualidade ou timidez. Pelo contrário, ele protege a possibilidade de amar alguém como pessoa e não apenas como corpo. Uma jovem contou que usava roupas provocantes porque era insegura e precisava perceber os olhares dos rapazes para sentir-se desejada. Com o tempo, percebeu que estava atraindo atenção pelo motivo errado. Crystalina Evert resume esse risco ao recordar que uma mulher pode chamar os olhares para si ou ajudar a elevar os corações. São João Paulo II, na Teologia do Corpo, mostra que o corpo foi criado para manifestar a pessoa e permitir uma verdadeira comunhão. Depois do pecado, surge o perigo de reduzir o outro a objeto. O pudor cria uma distância que, paradoxalmente, permite uma proximidade muito maior, porque abre espaço para enxergar aquilo que o Pequeno Príncipe recorda: o essencial não se vê apenas com os olhos.
Pureza não significa viver sem paixão. Um rio estreitado entre pedras ganha velocidade; um carro potente precisa de controle para que sua força não termine em acidente. Assim também o amor cresce quando paixão e domínio de si caminham juntos. O branco e o vermelho aparecem como símbolos dessa união: pureza e ardor, razão e entrega, pão e vinho, túnica branca lavada no sangue do Cordeiro. Mesmo quem carrega um passado marcado por quedas pode recomeçar, porque a loucura do pecado encontra uma resposta ainda maior na loucura do amor de Cristo na Cruz. A pureza continua sendo possível pela graça, pela misericórdia e pela ajuda de Nossa Senhora, que nos ensina a resguardar o que é santo para amar com mais liberdade, profundidade e força.
*Referências citadas e mencionadas:*
Bíblia: Cântico dos Cânticos 4,12
Bíblia: relato da Arca da Aliança entre os filisteus, 1 Samuel 4 a 6
Bíblia: João 16,12-13
Bíblia: Torre de Babel, Gênesis 11
Bíblia: parábola da veste nupcial, Mateus 22,1-14
Bíblia: Salmo 24
Bíblia: Colossenses 3,3
Bíblia: Apocalipse 7,14
Liturgia: Oração Eucarística IV
Solenidade da Assunção de Nossa Senhora
São João Paulo II: Teologia do Corpo
Fulton Sheen: obra dirigida a sacerdotes mencionada na meditação
Antoine de Saint-Exupéry: O Pequeno Príncipe
C. S. Lewis: As Crônicas de Nárnia
J. R. R. Tolkien: obras e reflexão sobre a presença do cristianismo na arte
Edith Stein: referência ao “meu segredo é para mim”
Crystalina Evert e Jason Evert: trabalhos de formação sobre castidade, sexualidade e Teologia do Corpo
*Livro de Enoque*, texto apócrifo
Nelson Rodrigues: frase atribuída sobre o “homem de uma mulher só”
Lulu Santos: referência musical à ideia de loucura e razão no amor
Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, e devoção a Nossa Senhora das Neves
Museu Imperial e referência histórica a Dom Pedro I, Dona Amélia e à Ordem da Rosa