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Intervalos - Supercine (1995)

Arquivo Marckezini

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Intervalos - Supercine (1995)

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O Clarim Triunfal dos Excluídos: A Ópera de Tubo, O Poderoso Chefão 3 e a Solidão do Supercine O Supercine nas noites de sábado operava como o sacramento laico da solidão da classe média brasileira. Enquanto a vida fervilhava do outro lado da janela — nas festas, bares e encontros aos quais o espectador nunca fora convidado —, a vinheta do programa irrompia na tela da TV de tubo como um clarim triunfal, disfarçando com acordes efusivos o tédio monumental de quem simplesmente não tinha para onde ir. A Capela de Tubo e a Ilusão do Cinema de Gala Sob a perspectiva da sociologia da alienação e da filosofia do vazio existencial, a sessão de sábado à noite oferecia uma anestesia estética temporária. A emissora vendia a ilusão de uma sala de cinema privativa, enquanto a arquitetura do abandono se desenhava no estofado surrado do sofá: A Fanfarra da Exclusão x O Quarto Escuro: A música de abertura do Supercine projetava uma atmosfera de celebração e sofisticação hollywoodiana. Contudo, o teto dessa experiência era o silêncio pesado da casa adormecida, quebrado apenas pelo zumbido estático do tubo e pelo consumo melancólico de um resto de refrigerante sem gás. O Mito de Corleone x A Mediocridade Cotidiana: Exibir O Poderoso Chefão 3 às dez da noite era um requinte de ironia. O espectador imergia na tragédia monumental de Michael Corleone — na dor aristocrática da culpa, do poder e do declínio de um império. Projetar essa grandiosidade shakespeariana sobre o indivíduo comum criava um espelhamento perverso: o mafioso chorava a perda de seu domínio sob as escadarias de Palermo, enquanto o brasileiro anônimo encarava a perspectiva do desemprego, da conta de luz atrasada e da segunda-feira que se aproximava inexoravelmente. O Deserto da Uma da Manhã O clímax dessa violência psicológica não estava no tiro que vitimou Mary Corleone, mas no subir dos créditos finais. Por volta da uma da manhã, quando a música tema cessava e a tela afundava no chuvisco do encerramento da transmissão, a anestesia evaporava. Faltava a iluminação de estúdio; sobrava o vazio existencial absoluto. Diante do tubo apagado, o indivíduo encarava o próprio reflexo no vidro escuro da TV: sozinho no sábado à noite, desprovido de império, de poder e de qualquer perspectiva de redenção.