O Ensaio da Coragem | Filosofias Musicais
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O Ensaio da Coragem | Filosofias Musicais
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Uma percussionista percebe que saber contar os tempos não significa saber cuidar de quem toca com ela. Um ensaio sobre hábitos, responsabilidade e aprender a corrigir sem humilhar.
Inspiração filosófica: Aristóteles, Ética a Nicômaco, livro II, capítulos 1 e 4. Narrativa e versos originais; não são citações do filósofo.
Série: Filosofias Musicais.
Visual procedural original: baquetas, pulsos e ritmos compartilhados, com três faixas de reação ao áudio. Sem imagens de terceiros.
#FilosofiasMusicais #MusicaExperimental #Aristoteles #Coragem
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LETRA
Eu sabia a hora exata de entrar.
Não sabia a hora de parar de humilhar alguém.
Regia um grupo de percussão
na sala emprestada de uma escola.
Faltavam duas semanas para o festival.
Eu tinha contado cada silêncio.
Até os que ninguém me pediu.
O menino novo entrava antes.
Sempre no mesmo lugar.
Eu parava tudo.
Fazia imitação do erro.
O grupo ria,
daquele jeito de quem quer ficar do lado certo
da bronca.
Eu dizia que era para ele aprender.
Mandava repetir.
Ele aprendeu a olhar para mim
antes de olhar para o instrumento.
Na hora, achei que fosse progresso.
Eu contava quatro tempos,
mas deixava alguém pra trás.
Queria o som inteiro,
não ouvi o que ele faz.
Cada vez que eu repetia
meu jeito de corrigir,
era a minha mão também
aprendendo a ferir.
Uma colega filmou o ensaio.
Disse que era para divulgar.
Com a câmera ligada,
eu sorri quando ele errou.
Expliquei devagar.
Esperei que tentasse de novo.
Depois assisti ao vídeo no ônibus.
Não fiquei orgulhosa.
Fiquei pensando
como tinha sido fácil encontrar paciência
quando havia alguém gravando.
Na segunda, ele não veio.
Na terça, também não.
Mandei uma mensagem.
Respondeu que preferia não continuar.
Pedi desculpa.
Não escrevi que era meu jeito.
Não pedi que entendesse a minha pressão.
Ele agradeceu.
Não voltou naquela semana.
A cadeira vazia ficou perto da porta.
Eu queria resolver aquilo depressa,
como quem aperta um parafuso
e testa se o barulho parou.
Mas não havia um parafuso.
Havia alguém que podia escolher
não sentar mais ali.
Dividimos o ensaio em partes menores.
Perguntei onde cada pessoa se perdia.
Descobri duas marcações minhas
que só faziam sentido na minha cabeça.
Uma menina pediu para contar mais devagar.
Eu respirei para dizer que não dava tempo.
Era a frase de sempre,
já chegando pronta.
Pedi que mostrasse.
Ela mostrou.
Eu mudei a marcação.
O que eu treino todo dia
chega antes de eu pensar.
Minha voz conhece atalhos
que eu preciso revisar.
Não basta acertar uma vez
quando alguém está a olhar.
Tem um jeito de fazer
que eu ainda vou praticar.
O festival passou.
Tocamos bem em algumas partes.
Em outras, corremos.
Não ganhamos.
Na semana seguinte,
sem câmera,
sem plateia,
sem data no calendário,
um tambor entrou antes.
Senti a piada subir.
Conhecia até a risada que viria depois.
Segurei a baqueta.
Perguntei de onde a pessoa queria recomeçar.
Não fiquei uma pessoa nova naquele instante.
Fiquei ali.
E fiz diferente.
Há coragem na primeira nota,
há coragem em corrigir.
Há coragem em não fazer
o que ficou fácil repetir.
O ritmo não precisa de medo
pra ter onde se apoiar.
Às vezes, a mão mais firme
é a que aprende a esperar.
A cadeira perto da porta continua lá.
Se ele voltar, é dele a escolha.
Hoje começamos pelo trecho difícil.
Eu conto.
Todo mundo respira.
E a gente tenta.