Duas Cópias da Chave | Filosofia Cantada
Filosofias Musicais
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Duas Cópias da Chave | Filosofia Cantada
14 просмотров · 7 дней назад
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Duas irmãs têm a chave de uma oficina. Mas o tempo, o dinheiro e as decisões não estão igualmente ao alcance das duas. Uma bolsa de estudos põe essa diferença à vista: uma escolha pode depender do trabalho que outra pessoa ficou encarregada de fazer.
Uma história musical original sobre liberdade, cuidado e condições concretas para escolher, inspirada por questões de Simone de Beauvoir em Por uma moral da ambiguidade. Não é uma citação nem uma adaptação literal do livro. A saída não é abandonar automaticamente o próprio projeto: é negociar tempo, acesso ao dinheiro, trabalho e responsabilidades sem decidir a vida da outra pessoa.
Série: Filosofia Cantada / Filosofias Musicais.
Visual abstrato em GLSL: fios, costura, dois ritmos independentes e uma janela verde. Reação ao áudio nas faixas grave, média e aguda. Narração e canção originais preservadas integralmente nos vídeos completos.
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Letra e narração:
Nós duas tínhamos a chave.
Mas só eu sabia a senha do caixa.
A oficina era pequena.
Duas máquinas,
uma chaleira
e uma janela que abria com um empurrão no canto.
Na placa da entrada, os nossos nomes tinham o mesmo tamanho.
Quando chegou a bolsa para estudar fora,
eu pulei no meio dos retalhos.
Minha irmã me abraçou.
Depois voltou para a máquina.
Eu já estava escolhendo o quarto.
Ela perguntou das encomendas de novembro.
Eu disse que a gente dava um jeito.
Perguntou de quem levaria nossa mãe às consultas.
Eu disse que a gente dava um jeito.
Na terceira vez,
percebi que “a gente”
era uma palavra que eu usava
quando não tinha feito a conta.
Eu dizia: você também pode,
há tanta coisa pra escolher.
Mas deixava o dia inteiro
ocupado antes de ela querer.
Uma chave em cada bolso,
dois nomes no mesmo portão.
Por que o mundo cabia no meu plano
e só sobrava trabalho na sua mão?
Comprei um curso para ela.
Achei que fosse um presente perfeito.
Deixei o comprovante na mesa,
esperando ver a surpresa.
Ela perguntou em que horário faria.
Eu falei das aulas gravadas.
Ela apontou para os vestidos,
para a agenda,
para a chaleira que já tinha fervido duas vezes.
Então me mostrou um desenho.
Uma jaqueta com forro verde.
Tinha feito havia meses.
Eu nunca tinha visto.
Ela não queria o meu curso.
Queria uma tarde sem encomendas minhas.
Queria mexer no dinheiro que também ganhava.
Queria saber o que eu pretendia dividir
além da felicidade de estar indo embora.
Minha primeira ideia foi desistir da viagem.
Parecia generoso.
Também era mais fácil
que sentar e mudar a nossa vida de verdade.
Ela disse que não tinha pedido isso.
Pegamos a agenda.
Não basta dizer que a porta está aberta
se alguém precisa ficar pra fechar.
Não basta oferecer um caminho
sem tempo pra nele andar.
Quero ir sem chamar de destino
o peso que deixei pra você.
Dois nomes na placa pedem
duas vidas podendo escolher.
Fizemos as contas.
Uma ajuda paga em dois dias da semana.
Menos encomendas do que eu queria aceitar.
Dividir as consultas com nosso irmão,
depois de perguntar o que ele podia assumir.
Passei o acesso do caixa.
Minha irmã mudou a organização das prateleiras.
Eu reclamei que não achava mais nada.
Ela riu.
Disse que agora eu ia precisar perguntar.
Ainda discutimos sobre o preço das peças.
Sobre os horários.
Sobre o nome de quem atendia cada pedido.
Não ficou tudo leve.
Ficou mais difícil fingir que não havia escolha.
Na véspera da viagem,
a jaqueta de forro verde estava no manequim.
Perguntei para quem era.
Ela disse que ainda não sabia.
Tinha feito para ver como ficava.
Fiquei olhando.
Eu conhecia a costura dela.
Estava começando a conhecer seus projetos.
Duas cópias da chave,
duas formas de chegar.
Meu caminho não precisa
do seu caminho parar.
Eu levo os meus cadernos,
você muda a luz do salão.
A oficina continua aberta
sem caber só na minha mão.
Já na estrada, recebi uma foto.
Ela tinha pintado a janela de verde.
Escrevi: você nem me avisou.
Apaguei.
Perguntei qual tinta tinha usado.