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Intervalos - Globo (1993)

Arquivo Marckezini

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Intervalos - Globo (1993)

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O Purgatório do Consumo sob o Efeito Pavloviano: O Plim-Plim como Fronteira Liminar entre a Miséria Real e a Fantasia Mercadológica Professor Praxedes de Menezes Filho Em 1993, sob o peso de uma inflação corrosiva que devorava salários antes do almoço, o intervalo comercial da Rede Globo funcionava como uma estufa de alucinações de classe. A vinheta do Plim-Plim operava como um sinalizador pavloviano: um apito sonoro que avisava ao proletariado anestesiado que era hora de interromper a miséria cotidiana para consumir 180 segundos de prosperidade inatingível. A transição era de um sadismo espetacular. Em meio à solidão de salas suburbanas mal iluminadas, o espectador era massacrado por um desfile de abundância: a gordura gloriosa e a bomba de alto colesterol do Cheddar McMelt, a pele aristocrática banhada pelo Sabonete Lux, a promessa romântica dos LPs de Júlio Iglesias e a opulência infantil dos brinquedos da Estrela e dos blocos de Lego. Para coroar o circo, o título de capitalização Papa-Tudo prometia fortunas instantâneas entre uma e outra cena da juventude fútil e milionária de Beverly Hills na chamada de Barrados no Baile. A maior perversidade da grade, contudo, residia na justaposição moral. Entre um comercial de Lego importado e a ostentação de brinquedos caríssimos, a emissora encaixava as chamadas do Criança Esperança. A ironia sociológica beirava o macabro: o mesmo veículo que bombardeava a infância periférica com fetiches de consumo inalcançáveis vinha a público lembrar que, fora do tubo de imagem, o país mal conseguia garantir a sobrevivência básica de suas crianças. A TV vendia o brinquedo de luxo em um segundo e, no seguinte, pedia esmola para salvar da desnutrição a infância que nunca teria acesso àquele anúncio. Sob a ótica da Indústria Cultural, o Plim-Plim cumpria uma função estritamente liminar: demarcava a fronteira entre o purgatório do trabalhador e o paraíso da mercadoria. Ao final do bloco, o segundo sinal sonoro soava como o bater de um portão de cela. A vinheta devolvia o indivíduo ao silêncio do seu quarto, onde a luz azulada do tubo se apagava e a única coisa concreta que sobrava era a certeza da marmita fria no dia seguinte. O sinal não separava apenas atrações e anúncios; dividia, com precisão cirúrgica, a opulência que a televisão projetava da miséria que a população efetivamente amargava.