19 - Despertar ambiental o ambiente (parte 1)
Manuel Duarte Pinheiro
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Manuel Duarte Pinheiro
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Despertar Ambiental (1960 – 1969) — Parte 1 de 2
O Despertar Ambiental (1960-1969) é, na expressão da própria série, o verdadeiro divisor de águas do ambientalismo global. A pergunta central muda de "como reconstruir e produzir mais?" para "quais são as consequências ambientais desse crescimento?"
A década começa numa quase total ausência de legislação ambiental ou de agências reguladoras, mas a televisão passa a difundir imagens de desastres ambientais e a ciência ambiental organiza-se cada vez mais em torno da ecologia. A prosperidade e o consumo de massas — automóvel, petróleo, química, agricultura intensiva — continuam a crescer, mas as suas externalidades tornam-se, pela primeira vez, visíveis e discutidas publicamente.
Na Ásia Central, o desvio soviético dos rios Amu Daria e Syr Daria, a partir de 1960, para irrigação intensiva de algodão seca progressivamente o Mar de Aral — de 68 000 km² para menos de 7 000 km² —, gerando salinização, tempestades de pó tóxico e o colapso da pesca e da saúde da população da região: um exemplo extremo de planeamento central cego (alterações estruturais de terceira ordem), que subverte por completo o sistema hidrológico.
Em março de 1967, ao largo da Cornualha e da Bretanha, o encalhe do superpetroleiro Torrey Canyon derrama cerca de 120 000 toneladas de crude e mata cerca de 15 000 aves marinhas — o primeiro grande desastre com superpetroleiros, agravado pelo uso errático de dispersantes tóxicos, numa falha de primeira ordem que expõe a total ausência de planos internacionais de contingência.
O paradigma inverte-se: de "os recursos são ilimitados e a natureza absorve os resíduos" passa-se a "os recursos são finitos e a poluição pode ser irreversível". Rachel Carson publica "Primavera Silenciosa" em 1962, tornando compreensíveis ao grande público os efeitos sistémicos dos pesticidas; movimentos contraculturais e cívicos — como a Marcha sobre Washington de 1963, pelos direitos civis e por emprego — mobilizam a opinião pública e alimentam uma cultura de contestação que, nesta década, se estende também ao consumismo; e, em dezembro de 1968, a fotografia "Earthrise", captada pela missão Apollo 8, oferece a primeira imagem da Terra como um sistema único, limitado e frágil.
No final da década, o incêndio no rio Cuyahoga (1969) torna-se um ícone do ativismo ambiental norte-americano. A consciência ecológica ainda procura, contudo, forma institucional — é esse percurso, do caso de Doñana ao planeamento ecológico de Ian McHarg, que a segunda parte desta época retoma.