O Retrato Que Não Parava | Filosofias Musicais
Filosofias Musicais
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O Retrato Que Não Parava | Filosofias Musicais
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Um pintor procura o verdadeiro rosto de um homem em quatro fotografias. Mas a pergunta muda quando ele encontra a própria assinatura numa promessa esquecida.
Uma história musical sobre identidade, passagem do tempo e responsabilidade. Podemos mudar sem deixar de responder pelo que fizemos.
Série: Filosofias Musicais
Idioma: português brasileiro
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LETRA
O homem trouxe quatro fotografias.
Em nenhuma ele parecia concordar com as
outras.
Eu pintava retratos por encomenda.
Na porta do ateliê,
tinha escrito uma frase bonita:
o seu verdadeiro rosto.
Ele leu.
Disse que esperava encontrar o dele.
Na primeira foto, tinha vinte anos
e um sorriso que ocupava quase tudo.
Na segunda, segurava um bebê
como quem segura uma pergunta.
Na terceira, estava de terno.
Na quarta, sem cabelo, na praia,
rindo de alguma coisa fora do quadro.
Perguntei qual ele queria.
Disse que não sabia.
Se soubesse,
talvez não tivesse trazido as quatro.
Qual desses olhos eu pinto?
Qual dessas mãos ficou?
O que mudou no caminho,
o que o caminho levou?
Se eu prendo a vida num rosto,
o resto aprende a escapar.
Meu traço procura uma margem,
a pessoa continua a passar.
Escolhi a fotografia de terno.
Parecia séria,
boa para uma moldura grande.
Ele olhou o primeiro desenho.
Disse que naquele ano
tinha sido difícil viver com ele.
Eu falei que as pessoas mudam.
Ele concordou.
Depois perguntou:
e as promessas que ficaram?
Voltei a olhar a foto.
Eu tinha desenhado autoridade
onde ele reconhecia distância.
Depois que ele foi embora,
procurei os meus autorretratos.
Num deles, eu tinha dezoito anos
e fazia questão de parecer triste.
Noutro, tinha apagado uma cicatriz.
No mais recente,
não tinha terminado os olhos.
Atrás de uma tela,
encontrei o esboço de um retrato da minha
irmã.
Eu prometera entregar no aniversário.
Havia dois anos.
Pensei: aquela pessoa já não sou eu.
A frase serviu por alguns segundos.
Depois vi a assinatura.
Era a minha.
Posso mudar de caminho,
posso aprender a voltar.
Mas quem recebeu minha palavra
não desaparece ao me mudar.
Não sou um rosto parado,
nem uma folha sem chão.
O tempo altera meus traços,
não assina por mim o perdão.
Liguei para minha irmã.
Não expliquei minhas fases.
Perguntei se ainda queria o retrato.
Ela disse que agora preferia uma estante.
Ri.
Ela não estava brincando.
Combinamos de escolher a madeira.
O quadro podia esperar.
A conversa, não precisava esperar mais.
No dia seguinte,
o homem voltou ao ateliê.
Trouxe uma quinta fotografia.
Era daquela manhã,
tomando café sem os óculos.
Disse que tinha lembrado de mais uma coisa.
Eu abri espaço na mesa.
Pintei a curva do sorriso da primeira.
A atenção da mão segurando o bebê.
As rugas da praia.
Não escondi a dureza que ele via no terno.
Mas não fiz uma soma de fotografias.
Pintei o homem sentado à minha frente,
escolhendo o que podia reconhecer.
Quando terminei,
ele ficou quieto.
Depois perguntou se podia mudar de opinião.
Eu disse que sim.
Só pedi que me contasse por quê.
Há um rosto nesta tarde,
há um nome neste papel.
Amanhã muda a luz da janela,
muda a sombra, muda o céu.
Não preciso fingir que sou o mesmo
para responder pelo que fiz.
Posso rever o meu desenho
sem arrancar a sua raiz.
Tirei da porta a frase
sobre o verdadeiro rosto.
Agora está escrito só:
retratos.
E embaixo,
com uma letra menor:
a gente conversa antes.