10 - Idade Média e o ambiente
Manuel Duarte Pinheiro
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Manuel Duarte Pinheiro
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Idade Média (476 – 1492)
A Idade Média estende-se da queda do Império Romano do Ocidente, em 476, até à chegada de Colombo à América, em 1492, marco convencional da passagem para a Idade Moderna. Sucede-se à divisão do Império Romano (395) e ao saque de Roma pelos visigodos (410), num longo processo em que o sistema fiscal romano se revela incapaz de sustentar o exército e as fronteiras.
Com o vazio institucional deixado por Roma, grandes propriedades rurais autossuficientes — as villae — tornam-se a base económica, e a Igreja assume boa parte do papel administrativo do antigo Estado. As infraestruturas romanas regridem devido ao colapso institucional: abandonam-se os aquedutos e as termas, e as ruas de terra batida substituem a pavimentação de pedra. O modelo mental muda de "a lei vem de Roma e das suas legiões" para "a segurança vem do senhor local, em troca de fidelidade e serviço" — do Estado centralizado ao poder feudal disperso.
O período ilustra bem os custos dessa regressão sanitária. Sem a separação romana entre aquedutos e esgotos, a insalubridade urbana cresce a partir da Baixa Idade Média; em Florença, entre 1347 e 1351, essa fragilidade combina-se com o desconhecimento total da teoria dos germes — a sociedade culpava os "miasmas" — e a Peste Negra dizima entre metade e dois terços da população da cidade, e cerca de um terço da população europeia: uma resposta que ficou pelo nível de "reagir" ao sintoma. Em contraste, Portugal oferece um dos primeiros casos de ordenamento do território a prazo: nos finais do século XIII, D. Dinis expande a plantação do Pinhal de Leiria, fixando dunas costeiras que ameaçavam terras agrícolas e garantindo madeira naval durante séculos — um verdadeiro "criar e redesenhar" a estrutura biofísica da costa. Entretanto, o crescimento populacional e as grandes arroteias medievais (os "grands défrichements" franceses) reduzem a cobertura florestal da Europa Ocidental de cerca de 50-55% para 25% do território entre os séculos IX e XIII, o que obriga à criação das primeiras leis de proteção das águas e das florestas.
O paradigma é de gestão comunitária e de religiosidade, com a terra administrada por senhorios e ordens monásticas. São Francisco de Assis, no "Cântico das Criaturas" (1225), escreve o que se pode considerar o primeiro manifesto ecológico europeu; Alberto Magno defende a observação empírica da natureza, e Hildegarda de Bingen desenvolve, no "Liber Divinorum Operum", uma visão integrada de natureza e saúde. As respostas legais formalizam-se em cartas de foral, coutadas reais e posturas municipais — a tradição do pregão "Água vai!" nasce desta ausência de saneamento.
O Renascimento italiano e a centralização das monarquias nacionais esgotam progressivamente a ordem feudal e abrem caminho para a Idade Moderna e para a expansão marítima.