Konrad — O Corpo que Eu Salvei
Fernando Henrique
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Konrad — O Corpo que Eu Salvei
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Fernando Henrique
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Konrad — O Corpo que Eu Salvei
Chegaste ao corredor sem voz e sem olhar,
com a mente ferida, difícil de alcançar.
Tentaram apagar quem vivia em ti;
eu vi uma pessoa, não um caso ali.
Havia uma abertura, um risco mortal,
o corpo exausto, o pulso irregular.
Suturei cada ferida, lutei pra conter
o que ainda podia te fazer viver.
Eu salvei teu corpo, mas não pude te alcançar;
teus olhos me olhavam sem saber me encontrar.
E a Aurora te levou, sem dizer pra onde ir;
desde então, no silêncio, não paro de te ouvir.
Passei horas cuidando, tentando estabilizar,
medindo cada sinal, sem poder descansar.
Queria que a vida voltasse a florescer;
mas viver não é o mesmo que poder reconhecer.
Quando enfim despertaste, não sabias quem eras;
olhavas as paredes, perdidas as referências.
Às vezes vinha um riso, outras, lágrimas a cair;
e eu, junto ao teu leito, sem saber como te atingir.
Eu salvei teu corpo, mas não pude te alcançar;
teus olhos me olhavam sem saber me encontrar.
E a Aurora te levou, sem dizer pra onde ir;
desde então, no silêncio, não paro de te ouvir.
Eu quis achar teu nome no registro em minhas mãos,
mas eras só mais um número entre tantos prontuários.
Pra eles, teu destino era um dado a resolver;
pra mim, eras alguém que merecia viver.
Por alguns poucos dias, cuidei de ti ali;
a cada frágil melhora, pensei que resisti.
Mas vieram buscar-te, sem deixar explicação;
e a porta se fechou, levando a direção.
Eu salvei teu corpo, mas não pude te alcançar;
teus olhos me olhavam sem saber me encontrar.
E a Aurora te levou, sem dizer pra onde ir;
desde então, no silêncio, não paro de te ouvir.
Perguntei pelos rastros, procurei nos arquivos;
mas nomes se apagavam nos registros furtivos.
Nenhuma resposta, nenhum sinal que voltou;
só o leito vazio e o silêncio que ficou.
Às vezes, no plantão, escuto um som no corredor;
por um breve segundo, retorno àquela dor.
Lembro os olhos perdidos, tentando entender;
e o quanto uma vida eu não pude devolver.
Eu salvei teu corpo, mas não pude te alcançar;
teus olhos me olhavam sem saber me encontrar.
E a Aurora te levou, sem dizer pra onde ir;
desde então, no silêncio, não paro de te ouvir.
Não sei se estás viva, nem onde estás agora;
não sei se alguém te ampara, se a noite te devora.
Guardo a pergunta comigo, sem resposta, sem fim:
se ainda há um pedaço de ti que lembre de mim.
Se um dia alguém te encontrar e cuidar de você,
que te chame pelo nome, se o nome voltar a aparecer.
Eu não pude trazer de volta quem eras antes dali,
mas nunca te tratei como aquilo que fizeram de ti.
Eu salvei teu corpo, mas não pude te alcançar;
teus olhos me olhavam sem saber me encontrar.
E a Aurora te levou, sem dizer pra onde ir;
desde então, no silêncio, não paro de te ouvir.